Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Ainda que pareça fora de propósito o que se contém neste capítulo, pareceu decente escrever aqui o que nele se contém, para se melhor entender a natureza e condição dos tupinambás, com os quais os franceses, alguns anos antes que se povoasse a Bahia, tinham comércio; e quando se iam para França com suas naus carregadas de pau de tinta, algodão e pimenta, deixavam entre os gentios alguns mancebos para aprenderem a língua e poderem servir na terra, quando tornassem da França para lhes fazer seu resgate; os quais se amancebaram na terra, onde morreram, sem se quererem tornar para a França, e viveram como gentios com muitas mulheres, dos quais, e dos que vinham todos os anos à Bahia e ao rio de Seregipe, em naus da França, se inçou a terra de mamelucos, que nasceram, viveram e morreram como gentios; dos quais há hoje muitos seus descendentes, que são louros, alvos e sardos, e havidos por índios tupinambás, e são mais bárbaros que eles. E não é de espantar serem estes descendentes dos franceses alvos e louros, pois que saem a seus avós; mas é de maravilhar trazerem do sertão, entre outros tupinambás, um menino de idade de dez anos para doze, no ano de 1586, que era tão alvo, que de o ser muito não podia olhar para a claridade; e tinha os cabelos da cabeça, pestanas e sobrancelhas tão alvas como algodão, com o qual vinha seu pai, com quem era tão natural, que toda pessoa que o via, o julgava por esse sem o conhecer; e não era muito preto, e a mãe, que vinha na companhia, era muito preta; e pelas informações que se então tomaram dos outros tupinambás da companhia, achou-se que o pai deste índio branco não descendia dos franceses, nem eles foram àquelas partes, de onde esta gente vinha, nunca; e ainda que este menino era assim branco, era muito feio.Nesta povoação onde este índio branco veio ter, que é de Gabriel Soares, aconteceu um caso estranho a uma índia tupi-nambá, que havia pouco viera do sertão, a qual ia para uma roça a buscar mandioca, levando um filho de um ano às costas, que ia chorando, do qual se enfadou a mãe de maneira que lhe fez uma cova com um pau no chão, e o enterrou vivo; e foi-se a índia com as outras à roça, que seria dali distância de um bom tiro de bombarda; e arrancou a mandioca, que ia buscar; e tornou-se com ela para casa, que seria de onde a criança ficava enterrada, outro tiro de bombarda; sobre o que as outras índias, que viram esta crueldade de mãe, estando fazendo a farinha, se puseram a praticar, maravilhando-se do caso acontecido, o que ouviram outras índias da mesma casa ladinas, e foram-no contar a sua senhora, que logo se informou do caso como acontecera, e sabendo a verdade dele mandou a toda pressa desenterrar a criança, que ainda acharam viva, e por ser pagã a fez batizar logo, a qual viveu depois seis meses.Daqui por diante se vai continuando com a vida e costumes dos tupinaés, e outras castas de gentio da Bahia que vive pela terra dentro do seu sertão, dos quais diremos o que pudemos alcançar deles; e começando logo nos tupinaés
C A P Í T U L O CLXXVIII
Que trata de quem são os tupinaés.
Tupinaés são uma gente do Brasil semelhante no parecer, vida e costumes dos tupinambás e na linguagem não têm mais diferença uns dos outros, do que têm os moradores de Lisboa dos de entre Douro e Minho; mas a dos tupinambás é a mais polida; e pelo nome tão semelhante destas duas castas de gentio se parece bem claro que antigamente foi esta gente toda uma, como dizem os índios antigos desta nação; mas têm-se por tão contrários uns dos outros que se comem aos bocados, e não cansam de se matarem em guerras, que continuamente têm, e não tão-somente são inimigos os tupinaés dos tupinambás, mas são-no de todas as outras nações do gentio do Brasil, e entre todas elas lhes chamam "taburas", que quer dizer contrários. Os quais tupinaés nos tempos antigos viveram ao longo do mar, como fica dito no título dos tupinambás, que os lançaram dele para o sertão, onde agora vivem, e terão ocupado uma corda de terra de mais de duzentas léguas; mas ficam entressachados com eles, em algumas partes, alguns tapuias, com quem têm também contínua guerra.São os tupinaés mais atraiçoados que os tupinambás, e mais amigos de comer carne humana, em tanto que se lhes não acha nunca escravo dos contrários que cativam, porque todos matam e comem, sem perdoarem a ninguém. E quando as fêmeas emprenham dos contrários, em parindo lhes comem logo a criança, a que também chamam cunhambira; e a mesma mãe ajuda logo a comer filho que pariu.
C A P Í T U L O CLXXIX
Que trata de alguns costumes e trajes dos tupinaés.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.