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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de pó, estava-se justamente apeando de uma calecha de praça. Um momento ficaram alli á porta, em quanto Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas. No Premio de Consolação, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao pé da meta, sem se magoar: e, por ultimo, já á partida, o Vargas, que ia na sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com ferocidade.

- Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas pelo velho principe Shakespereano de que tudo é bom quanto acaba bem.

- Um murro, disse Carlos rindo, é com effeito um bello ponto final.

No peristillo, o velho guarda-portão esperava, descoberto, com uma carta na mão para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s. ex.ª chegar.

Era uma letra ingleza de mulher, n'um enveloppe largo, lacrado com um sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo á primeira linha, teve um movimento tão vivo, de tão bella surpreza, illuminando-se-lhe tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo:

- Aventura? Herança?...

Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou:

- Um bilhete apenas, um doente...

Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas começava assim: - «Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos da Maia, e roga-lhe o obsequio...» - depois, em duas breves palavras, pedia-lhe para ir ver na manhã seguinte, o mais cedo possivel, uma pessoa de familia, que se achava incommodada.

- Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar ás sete e meia, hein?

- Sim, o jantar... - respondeu Carlos, sem saber o quê, banhado todo n'um sorriso, como em extase. Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapéo, leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel. Era datada d'esse mesmo dia á tarde. Assim, quando elle passara defronte da sua porta, já ella a escrevera, já o seu pensamento se demorara n'elle - quando mais não fosse senão ao traçar as lettras simples do seu nome. Não era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella não diria tão friamente «uma pessoa de familia.» Era talvez o esplendido preto de carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abençoada fosse ela para sempre, que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia lá uma pessoa n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos corredores interiores d'aquella casa - que havia apenas instantes sentira tão fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adorado bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus - tomava uma significação profunda, perturbadora...

Se ella não quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que os seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os d'ella - então poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico qualquer, um estranho. Mas não: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella abria-lhe a sua porta... - E o que sentia a esta idéa era uma gratidão ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos pés, ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem querer mais nada, sem pedir mais nada...

Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado, correcto - achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapéo na cabeça, passeando o quarto, n'esta agitação radiante.

- Você está a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as mãos nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu resplandecente collarinho. Você flameja!... Você parece que tem uma auréola na nuca!... Você succedeu-lhe o quer que seja de muito bom!

Carlos espreguiçou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em silencio, encolheu os hombros, e murmurou:

- A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede é, em definitivo, bom ou mau.

- Ordinariamente é mau, disse o outro friamente, aproximando-se do espelho a retocar com mais correcção o nó da gravata branca.

Livro Segundo

I

Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pé do Ramalhete até á rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de lenço na cabeça, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um relogio ronceiro estava batendo dez horas.

- A senhora já tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapéo.

A velha murmurou, d'entre a sombra do lenço que lhe cahia para os olhos, n'um tom cançado e doente:

- Já, sim, meu senhor. Já fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr. Domingos, não tarda...

(continua...)

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