Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


É costume entre os tupinambás que, quando morre qualquer deles, o levam a enterrar embrulhado na sua rede em que dormia, e o parente mais chegado lhe há de fazer a cova; e quando o levam a enterrar vão-no acompanhando mulher, filhas e parentes, se as tem, as quais vão pranteando até a cova, com os cabelos soltos sobre o rosto, estão-no pranteando até que fica bem coberto de terra; de onde se tornam para sua casa, onde a viúva chora o marido por muitos dias; e se morrem as mulheres destes tupinambás, é costume que os maridos lhes façam a cova, e ajudem a levar às costas a defunta, e se não tem já marido o irmão ou parente mais chegado lhe faz a cova.E quando morre algum principal da aldeia em que vive, e depois de morto alguns dias, antes de o enterrarem fazem as cerimônias seguintes. Primeiramente o untam com mel todo, e por cima do mel o empenam com penas de pássaros de côres, e põem-lhe uma carapuça de penas na cabeça e todos os mais enfeites que eles costumam trazer nas suas festas; e têm-lhe feito na mesma casa e lanço onde ele vivia, uma cova muito funda e grande, com sua estacada por derredor, para que tenha a terra que não caia sobre o defunto, e armam-lhe sua rede em baixo, de maneira que não toque o morto no chão; na qual rede o metem assim enfeitado, e põem-lhe junto da rede seu arco e flechas, e a sua espada, e o maracá com que costumava tanger, e fazem-lhe fogo ao longo da rede para se aquentar, e põem-lhe de comer num alguidar, e água num cabaço, como galinha; e como esta mata-lotagem está feita, e lhe põem também sua cangoeira de fumo na mão, lançam-lhe muita soma de madeira igual no andar da rede de maneira que não toque no corpo, e sobre esta madeira muita soma de terra, com ramas debaixo primeiro, para que não caia terra sobre o defundo; sobre a qual sepultura vive a mulher, como dantes. E quando morre algum moço, filho de algum principal, que não tem muita idade, metem-no em cócoras, atados os joelhos com a barriga, em um pote em que ele caiba, e enterram o pote na mesma casa debaixo do chão, onde o filho e o pai, se é morto, são chorados muitos dias.


C A P Í T U L O CLXXVI


Que trata do sucessor ao principal que morreu, e das cerimônias que faz sua mulher, e as que se fazem por morte dela também.


Costumam os tupinambás, quando morre o principal da aldeia, elegerem entre si quem suceda em seu lugar, e se o defunto tem filho que lhe possa suceder, a ele aceitam por seu cabeça; e quando não é para isso, ou o não tem, aceitam um seu irmão em seu lugar; e não os tendo que tenham partes para isso, elegem um parente seu, se é capaz de tal cargo, e tem as partes atrás declaradas.É costume entre as mulheres dos principais tupinambás, ou de outro qualquer índio, a mulher cortar os cabelos por dó, e tingir-se toda de jenipapo. As quais choram seus maridos muitos dias, e são visitadas de suas parentas e amigas; e todas as vezes que o fazem, tornam com a viúva a prantear de novo o defunto, as quais deixam crescer o cabelo até que lhes dá pelos olhos, e se não casa com outro, logo faz sua festa com vinhos, e torna-se a tosquiar para tirar o dó, tinge-se de novo do jenipapo.Costumam os índios, quando lhes morrem as mulheres, deixarem crescer o cabelo, no que não têm tempo certo, e tingem-se do jenipapo por dó; e quando se querem tosquiar, se tornam a tingir de preto à véspera da festa dos vinhos, que fazem a seu modo, cantando toda a noite, para a qual se ajunta muita gente para estes cantares, e o viúvo tosquia-se à véspera, à tarde, e ao outro dia há grandes revoltas de cantar e bailar, e beber muito; e o que neste dia mais bebeu fez maior valentia, ainda que vomite e perca o juízo. Nestas festas se cantam as proezas do defunto ou defunta, e do que tira o dó, e o mesmo dó tomam os irmãos, filhos, pai e mãe do defunto, e cada um por si faz sua festa, quando tira o dó apartado, ainda que o tragam por uma mesma pessoa; mas este sentimento houveram de ter os vivos dos mortos, quando estavam doentes; mas são tão desamoráveis os tupinambás que, quando algum está doente, e a doença é comprida, logo aborrece a todos os seus, e curam dele muito pouco; e como o doente chega a estar mal, é logo julgado por morto; e não trabalham os seus mais chegados por lhe dar a vida, antes o desamparam, dizendo que pois há de morrer, e não tem remédio, que para que é dar-lhe de comer, nem curar dele; e tanto é isto assim que morrem muitos ao desamparo; e levam a enterrar outros ainda vivos, porque como chega a perder a fala dão-no logo por morto; e entre os portugueses aconteceu muitas vezes fazerem trazer de junto da cova escravos seus para casa, por as mulheres os julgarem por mortos, muitos dos quais tiveram saúde e viveram depois muitos anos.


C A P Í T U L O CLXXVII


Que trata de como entre os tupinambás há muitos mamelucos que descendem dos franceses, e de um índio que se achou muito alvo.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...124125126127128...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →