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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

A rapariga ficou a olhar para ela, espantada.

- O que a Juliana disse foi num repente... Tem estado a chorar, a arrepender-se. É a criada maisantiga. O senhor estima-a muito...

- Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora?

Luísa insistiu, baixo, envergonhada:

- Foi um repente, tem estado a pedir perdão...

- Eu foi para defender a senhora! - exclamou a rapariga abrindo os braços aflita.

Luísa sentiu-se indignada; e impaciente, para acabar:

- Bem, Joana, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa...

- Vou-lhe fazer as contas.

- Olha que pago este! - gritou Joana, então, desesperada. E com uma solução, batendo o pé: Pois o senhor é que há de dizer! Eu vou dizer tudo ao senhor! Hei de lhe contar tudo o que se passou! A senhora não tem razão!...

Luísa olhava-a, estúpida. Agora era aquela! Era daquela rapariga, teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era demais! Veio-lhe um terror, sobrenatural, como um espanto da consciência, e apertando as fontes nas mãos abertas:

- Que expiação! Que expiação, Santo Deus!

De repente, como desvairada, agarrou Joana pelos braços, e falando-lhe junto do rosto:

Joana, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada! Despeça-se você! - E perdendo inteiramente todo o respeito próprio, caiu de joelhos, diante da cozinheira, soluçando: - Pelas cinco chagas de Cristo, vá, Joana, minha rica vá! Peço-lhe eu, Joana! Pelo amor de Deus!

A rapariga, assombrada, rompeu num choro estridente:

- Vou, sim, minha senhora!...Vou, sim, minha rica senhora!...

- Sim, Joana, sim. Eu dou-lhe alguma coisa. Você bem vê... Não chore... Espere...

Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas economias, voltou, galgando os degraus, meteu-lhas na mão, dizendo-lhe baixo:

- Faça uma trouxa, eu amanhã lhe mandarei o baú.

- Sim, minha senhora, - soluçava a rapariga, babada de dor - sim, minha rica senhora!

Luísa veio deixar-se cair de bruços sobre a sua chaise longue, num choro convulsivo também, desejando a morte, pedindo, num terror, piedade a Deus!

Mas a voz áspera de Juliana disse bruscamente à porta:

- Então em que ficamos?

A Joana vai-se. Que quer mais?

- Que saia já! disse a outra imperiosamente. - Que o jantar o faço eu. Por hoje, já se vê!

As lágrimas de Luísa secavam-se, de raiva.

- E a senhora agora ouça!

O tom de Juliana era tão insultante, que Luísa ergueu-se como ferida.

E Juliana, ameaçando-a, do alto, com o dedo erguido:

- E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lhas cantarei!...

E voltou as costas, batendo os tacões.

Luísa olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; mas tudo estava imóvel e correto; nem uma prega das cortinas se movera, e os dois pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam pretensiosamente.

Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o corpete, vestiu por cima um casaco largo de inverno, atirou o chapéu para a cabeça despenteada, saiu, desceu a rua tropeçando nas saias, quase a correr.

O Paula saltou para o meio da rua para a seguir; viu-a parar à porta de Sebastião, e veio dizer à estanqueira:

- Em casa do Engenheiro há novidade!

E ficou plantado à porta com os olhos cravados para as janelas abertas, onde as bambinelas de repes verdes caiam com as suas pregas imóveis.

- O Sr. Sebastião? - perguntava Luísa à rapariguita sardenta, que correra a abrir a porta.

E ia entrando pelo corredor.

- Na sala - disse a pequena.

Luísa subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta e correndo para ele, apertando as mãos contra o peito, numa voz angustiosa e sumida:

- Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-ma. Estou perdida!

Ele ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto manchado, o chapéu malposto, a aflição do olhar.

- Que é? Que é?

- Escrevi a meu primo - repetiu, com os olhos cravados nele, ansiosamente - a mulher apanhoume a carta... Estou perdida!

Fez-se muito pálida, os olhos cerraram-se-lhe.

Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sofá de damasco amarelo. E ficou de pé, mais descorado que ela, com as mãos nos bolsos do seu jaquetão azul, imóvel, estúpido.

De repente correu fora, trouxe um copo de água, borrifou-lhe o rosto ao acaso. Ela abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, fitou-o espantada, e deixando-se cair sobre o braço do canapé, com o rosto escondido nas mãos, rompeu num choro histérico.

O seu chapéu caíra. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as flores, pô-lo sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos pés debruçar-se junto dela:

(continua...)

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