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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Mulher! - bradou Luísa arremessando-se sobre a Joana, agarrando-a pelos braços.

Juliana, assombrada, fugiu.

- Ó Joana! Ó mulher! Que desgraça, que escândalo! - exclamava Luísa as mãos apertadas nacabeça.

- Racho-a! - dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como brasas - Racho-a!

Luísa andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pálida como repetindo, toda a tremer:

- O que você foi fazer, mulher! O que você foi fazer!

A Joana, ainda toda revolvida de sua cólera, com o rosto manchado de vermelho, remexia furiosamente as panelas.

- E se ela me diz uma palavra, acabo-a, aquela bêbeda! Acabo-a!

Luísa desceu ao quarto. No corredor saiu-lhe Juliana, com a cuia à banda, as dedadas escarlates na face, medonha.

- Ou aquela desavergonhada vai já para a rua - gritou ela - ou eu vou-me pôr lá embaixo naescada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe tudo!...

- Pois mostre, faça o que quiser! - disse Luísa, passando, sem a olhar.

Fora uma desesperação, um ódio que a tinham decidido. Mais valia acabar por uma vez!...

Sentia então como um alívio doloroso, em ver o fim do seu longo martírio! Havia meses que ele durava. E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha sofrido, as infâmias em que chafurdara e as humilhações a que descera, vinha-lhe um tédio de si mesma, um nojo imenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espezinhado; que nela nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena lutar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a morte uma purificação maior... - E onde estava ele, o homem que a desgraçara? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, governando os seus cavalos, dormindo com outras! E ela morreria ali, estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, nem uma palavra de resposta; nem a julgara digna do meio tostão da estampilha! O que ele lhe dizia pelas terras da Pólvora acima, naquela cupê: Dar-lhe-ia toda a sua vida, viveria à sombra das suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! Enquanto ela fora a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra um lindo colo - então bem, pronto! Mas teve uma dificuldade, chorou, sofreu - ah! não, isso não! "És um belo animal que me dás um grande prazer - perfeitamente, tudo o que quiseres; mas tornaste uma criatura dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil réis então boas noites, cá vou no paquete!" Oh, que estúpida que é a vida! Ainda bem que a deixava!

Foi-se encostar à janela. Estava um dia muito azul, muito doce. O sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade aveludada. O Paula, em chinelas de tapete, aquecia-se à porta do estanque. Então, diante do lindo ar de inverno, enterneceu-se. Todos eram felizes naquela manhã de rosas, só ela sofria, pobre dela! E ficou a olhar, como esquecida numa vaga saudade, com uma lágrima na pálpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina - e daí a pouco voltar com um galego, velho e pesado, que trazia o seu saco ao ombro.

Ia-se embora! - pensou Luísa. - Mandava por fora os baús! E depois? Remetia as cartas a Jorge, ou entregava-lhas ela mesma, no portal! Santo Deus! - E parecia-lhe ver Jorge aparecer no quarto, lívido, com as cartas na mão!...

Veio-lhe um terror alucinado: não queria perder o seu marido, o seu Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se dela a revolta da fêmea contra a viuvez; aos vinte e cinco anos ir murchar para um convento! Não, com os diabos!

Foi direita ao quarto de Juliana.

- Vem ver se lhe levo alguma coisa? - gritou logo a outra, furiosa.

Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas embrulhadas em jornais velhos.

- E ainda cá me ficam quatro camisas, dois pares de calcinhas, três pares de meias, seis punhosna lavadeira. Fica aí o rol. E quero as minhas contas!...

- Escute, Juliana, não se vá. - Mas a voz desapareceu-lhe, as lágrimas saltaram-lhe dos olhos.

Juliana pôs-se a olhar para ela do alto, triunfando, com uma botina de duraque em cada mão.

- É mandar aquela desavergonhada embora, e está tudo acabado! - E com uma voz aguda,batendo as solas das botinas: - Fica tudo como dantes, na paz do Senhor!

Uma alegria extraordinária acendia-lhe o olhar. Vingava-se!

Fazia-a chorar! Expulsava a outra! E não perdia os seus cômodos!

- É pôr a bêbeda na rua! É pô-la na rua!

Luísa curvou os ombros, foi à cozinha devagar; os degraus da escada pareciam-lhe imensos, infindáveis. Deixou-se cair num banco, e limpando os olhos:

- Joana, venha cá, escute, você não pode continuar na casa...

(continua...)

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