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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Negras da Costa, com as panelas de tacacá e de quibebe equilibradas sobre as rodilhas de riscado, que em forma de turbante lhes cingiam a carapinha, passavam, balançando os quadris num descadeiramento ridículo, e enchendo o ar de forte catinga suarenta, que se misturava ao aroma irritante do trevo e da manjerona exalado pelo penteado das mulatas, e ao pixé nauseabundo dos resíduos do Ver-o-peso. Raparigas de cor arrastando servilhas de marroquim vermelho ou verde, ofereciam aos olhos dos homens o busto moreno meio nu, apenas velado pela fina camisa de renda, decotada e de mangas curtas, mais excitante do que a nudez. Os negociantes de retalho, em mangas de camisa, pescoço nu, calças de brim, chinelos de tapete ou de couro claro, cavaqueavam com pachorra à porta da loja, ou sentados à beira do canal, sob as árvores quietas, abanando-se com ventarolas de papel. Homens vestidos de casimira, com ares de empregados públicos, avançavam lentamente, opressos pelo alto chapéu de seda, que lhes aquecia a cabeça, e contendo a custo nas mãos úmidas o guarda-chuva previdente e pesado, trocavam, a furto, olhares de inteligência com as mulatas de camisa de renda. Carroceiros portugueses, baixos e barbados, carrancudos, suados, recolhiam-se com as suas carroças de duas rodas, que uma parelha de burros puxava a custo, depois dum dia inteiro de labutar contínuo por um calor de janeiro. Dois ou três padres saíram do colégio descendo a calçada com passo grave, e dirigiram-se para fora da cidade pela estrada de S. José, cujas grandes árvores, salpicadas de luzes, estendiam-se a perder de vista pela frente de rocinhas elegantes e ricas. Caleças, puxadas a dois cavalos, passavam pela porta do Palácio, vindo da Travessa da Rosa e tomavam pela Rua da Cadeia. Os cocheiros estalavam o chicote, e o ruído dos trens punha, por momentos, uma nota alegre na tristeza monótona da praça.

Um instante de repouso se dava na vida da capital provinciana. Ao longe o chiar dos carros de lenha que se retiravam pela estrada fora, ao passo vagaroso dos bois, evocava idéias do sossego e tranqüilidade da roça, aumentando a melancolia vaga que fazia nascer a hora crepuscular da tarde, ao derradeiro eco do toque da Ave-Maria, pausadamente badalada pelo sino grande da sé.

Mas fechava-se a noite. As casas iluminavam-se uma a uma. Das lojas francamente abertas um jorro de luz clareava as calçadas, a trechos, mergulhando na sombra o centro da praça, o leito do canal do Ver-o-peso e a copa das árvores de todo oculta na escuridão do céu. Das janelas do Palácio do Governo escassa luz se derramava sobre o passeio, onde se formavam grupos, cada vez mais numerosos, de homens de paletó e chapéu alto e de mulheres. do povo. As ruas iam-se animando. Ouviam-se frases proferidas em voz alta, ditos alegres ou grosseiros atirados a grande distância, cortando subitamente o ar numa vibração metálica. Do lado da Rua dos Cavalheiros aproximava-se um tropel confuso de vozes e de passos.

E ele matutinho imberbe, recém-chegado na galeota do padrinho, pusera-se a olhar para todos os lados, a princípio deslumbrado e medroso, depois com maior segurança, numa grande curiosidade. Primeiro, ao levantar a cabeça, ficara embasbacado a admirar o tamanho do Palácio, que achava senhoril e nobre, as torres da sé, duma altura descomunal, ameaçando desabar sobre as casas próximas, a igreja de Santo Alexandre que lhe pareceu grande e majestosa, seguida do colégio vasto, cheio de janelas com vidros; a chefatura de polícia com o seu mirante de três janelas, com certeza o supra-sumo do gosto e da elegância. Depois ficara atordoado com o barulho dos carros de praça, duma novidade estranha e dum luxo caro; enlevara-se na contemplação dos vestuários dos homens de chapéu alto, que contrastava singularmente com o seu terno de brim pardo, os seus chinelos de tapete e o chapéu de palha de tucumã, ornado de larga fita preta. Apesar do esforço que fazia para dominar-se, a multidão de gente que vagabundeava na praça, cruzando-se em diversos sentidos, a infinidade de lojas e tavernas, freqüentadas e claras, e, sobretudo, o renque de lampiões de gás projetando uma luz brilhante sobre o colo de mulatas atrevidas, desembaraçadas, provocadoras, que lhe lançavam olhares esquisitos e incômodos, obrigando-o a virar o rosto para disfarçar o vexame, tudo isso causava-lhe um acanhamento invencível.

O povo continuava a afluir para a praça, desembocando da Travessa da Rosa, da Calçada do Colégio e mais ruas adjacentes. Algumas senhoras, raras, tímidas, destacando-se dos grupos pelos' chapéus enfeitados de flores artificiais, passeavam devagarinho pela frente do Palácio, como por acaso, não desejando mostrar que a concorrência as atraía, relanceando o olhar artisticamente indiferente sobre os grupos de rapazes alegres e de mulatinhas faceiras. A banda de música do corpo de polícia chegara finalmente, precedida de moleques armados de pequenas bengalas toscas que brandiam marcialmente, e começou o pot-pourri da Norma com vibrações metálicas dos instrumentos de sax.

Confuso, apalermado, tonto, pisara pela primeira vez o solo da grande capital da Amazônia, sentindo-se mesquinho e ridículo no meio daquela gente acostumada ao movimento dos carros e à luz brilhante dos lampiões de gás.

Agora, porém, era outra coisa.

Graças ao próprio esforço era célebre, respeitado, admirado naquela mesma cidade que sete anos antes o vira chegar desconhecido e semi-selvagem.

Agora preocupava a atenção pública!

Aqueles homens vestidos de casimira, com ares de empregados públicos, que passeavam lentamente a calçada do Palácio, talvez que, àquela hora, estivessem falando dele, padre Antônio de Morais, à sombra das árvores quietas, no intervalo do ruído dos carros que vinham da Travessa da Rosa, e os padres, ao saírem do colégio para se encaminharem dois a dois para a estrada de S. José, comentariam talvez a história extraordinária do antigo seminarista que em assunto de teologia moral levara à parede o maior teólogo do bispado.

Embebido nos pensamentos que as recordações evocadas lhe faziam nascer, padre Antônio não sentia o ubá correr pela superfície do Ramos. João Pimenta e o Felisberto respeitavam-lhe o silêncio, supondo-o causado por amargas saudades da Clarinha.

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