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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Os contrários que os tupinambás cativam na guerra, ou de outra qualquer maneira, metem-nos em prisões, as quais são cordas de algodão grossas, que para isso têm mui louçãs, a que chamam muçuranas, as quais são tecidas como os cabos dos cabrestos de África; e com elas os atam pela cinta e pelo pescoço, onde lhes dão muito bem de comer, e lhes fazem bom tratamento, até engordarem, e estão estes cativos para se poderem comer, que é o fim para que os engordam; e como os tupinambás têm estes contrários quietos e bem seguros nas prisões, dão a cada um por mulher a mais formosa moça que há na sua casa, com quem se ele agasalha, todas as vezes que quer, a qual moça tem cuidado de o servir, e de lhe dar o necessário para comer e beber, com o que cevam cada hora, e lhe fazem muitos regalos. E se esta moça emprenha do que está preso, como acontece muitas vezes, como pare, cria a criança até idade que se pode comer, que a oferece para isso ao parente mais chegado, que lho agradece muito, o qual lhe quebra a cabeça em terreiro com as cerimónias que se adiante seguem, onde toma o nome; e como a criança é morta, a comem assada com grande festa, e a mãe é a primeira que come desta carne, o que tem por grande honra, pelo que de maravilha escapa nenhuma criança que nasce destes ajuntamentos, que não matem; e a mãe que não come seu próprio filho, a que estes índios chamam cunhambira, que quer dizer filho do contrário, têm-na em ruim conta, e em pior, se o não entregam seus irmãos ou parentes com muito contentamento. Mas também há algumas, que tomaram tamanho amor aos cativos que as tomaram por mulheres, que lhes deram muito jeito para se acolherem e fugirem das prisões, que eles cortam com alguma ferramenta, que elas às escondidas lhes deram, e lhes foram pôr no mato, antes de fugir, mantimentos para o caminho; e estas tais criaram seus- filhos com muito amor, e não os entregaram a seus parentes para os matarem, antes os guardaram e defenderam deles até serem moços grandes, que como chegam a essa idade logo escapam da fúria dos seus contrários. Muitas vezes deixam os tupinambás de matar alguns contrários que cativaram por serem moços, e se quererem servir deles, aos quais criam e fazem tão bom tratamento que andam de maneira que podem fugir, o que eles não fazem por estarem à sua vontade; mas depois que este gentio teve comércio com os portugueses, folgam de terem escravos para lhos venderem; e, às vezes, depois de os criarem, os matam por fazerem uma festa destas.

C A P Í T U L O CLXXII


Que trata da festa e aparato que os tupi-nanibás fazem para matarem em terreiro seus contrários.


Como os tupinambás vêem que os contrários que têm cativos estão já bons para matar, ordenam de fazer grandes festas a cada um, para as quais há grandes ajuntamentos de parentes e amigos, que para isso são chamados de trinta e quarenta léguas, para a vinda dos quais fazem grandes vinhos, que bebem com grandes festas; mas fazem-na muito maiores para o dia do sacrifício do que há de padecer, com grandes cantares, e à véspera em todo dia cantam e bailam, e ao dia se bebem muitos vinhos pela manhã, com motes que dizem sobre a cabeça do que há de padecer, que também bebe com eles. E os que cantam suas cantigas vituperando o que há de padecer e exalçando o matador, dizendo suas proezas e louvores; e antes que bebam os vinhos untam o cativo todo com mel de abelhas, e por cima desse mel o empenam todo com penas de cores, e pintam-no a lugares de jenipapo, e os pés com uma tinta vermelha, e metem-lhe uma espada de pau nas mãos para que se defenda de quem o quer matar com ela, como puder; e como estes cativos vêem chegada a hora em que hão de padecer, começam a pregar e dizer grandes louvores de sua pessoa, dizendo que já estão vingados de quem os há de matar, contando grandes façanhas suas e mortes que deram aos parentes do matador, ao qual ameaçam e a toda a gente da aldeia, dizendo que seus parentes os vingarão. E começam a levar este preso a um terreiro fora da aldeia, que para esta execução está preparado, e metem-no entre dois moirões, que estão metidos no chão, afastados um do outro por vinte palmos, pouco mais ou menos, os quais estão furados, e por cada furo metem as pontas das cordas com que o contrário vem preso, onde fica preso como touro de cordas, onde lhe as velhas dizem que se farte de ver o sol, pois tem o fim tão chegado; ao que o cativo responde com grande coragem, que pois ele tem vingança da sua morte tão certa, que aceita o morrer com muito esforço. E antes de lhe chegar a execução, contemos como se prepara o matador.

C A P Í T U L O CLXXIII


Que trata de como se enfeita e aparata o matador.

(continua...)

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