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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Coitada! Conta cento e cinqüenta para trás! - E voltou-se, enrolando-se comodamente naroupa.

Ao outro dia Jorge levantara-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, o espanhol das minas, e jantar com ele no Gibraltar. Depois de vestido foi à sala de jantar - eram dez horas - e voltou dizer a Luísa, com uma cortesia profunda, espaçando as palavras: - que não estava a mesa posta! Que as chávenas do chá « da véspera estavam ainda por lavar! E que a senhora D. Juliana, a ilustre senhora D. Juliana tinha saído, a seu passeio!

Eu disse-lhe ontem à noite que me fosse-me ao sapateiro... - começou Luísa, que vestia o seu roupão.

- Ah, perdão! - interrompeu Jorge muito cerimoniosamente.

- Esqueci-me outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão!

Luísa acudiu logo:

- Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um cobro...

Subiu logo à cozinha, desesperada:

- Você por que não pôs a mesa, Joana, se a outra saiu?

Mas a rapariga não ouvira sair a Sra. Juliana! Imaginara que estava para baixo, para sala! Como ela agora é que queria fazer tudo!...

Quando Joana trouxe o almoço daí a pouco Jorge veio sentar-se à mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes com um sorriso mudo para ir buscar uma colher, o açucareiro. Luísa via-lhe os músculos da face contraídos: mal podia comer, atarantada; a chávena, quando a erguia, tremia-lhe mão; com os olhos baixos espreitava Jorge às furtadelas, e o seu silêncio torturava-a.

- Tu falaste ontem que ias jantar fora hoje...

- Vou - disse secamente. E acrescentou: - Graças a Deus!

- Estás de bom humor!... - murmurou ela.

- Como vês!

Luísa fez-se pálida, pousou o talher; tomou o jornal para disfarçar uma lagrimazinha que lhe tremia na pálpebra; mas as letras confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. Era a outra, decerto!

Jorge, que se ia erguer, disse logo:

- Há de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...

E ficou de pé, junto à mesa, aguçando devagar um palito.

Luísa, a tremer, levantou-se também:

- Eu vou-lhe falar...

Jorge reteve-a pelo braço, e tranqüilamente:

- Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...

Luísa recaiu na cadeira, muito pálida.

Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranqüilamente o seu palito.

Luísa então voltou-se para ele, e batendo as mãos, aflita:

- Não lhe digas nada!...

Ele fixou-a, assombrado:

- Por quê?

Juliana neste momento abriu o reposteiro.

- Então que desaforo é este, sair e deixar tudo por arrumar? - disse-lhe Luísa logo, erguendo-se.

Juliana, que vinha sorrindo, estacou à porta, petrificada: apesar de sua amarelidão, uma vaga cor de sangue espalhou-se nas feições.

- Não lhe torne acontecer semelhante coisa, ouviu? A sua obrigação é estar em casa pelamanhã... - Mas o olhar de Juliana, que se cravava nela terrivelmente, emudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos trêmulas. - Deite água neste bule, vá!

Juliana não se mexeu.

- Você não ouviu? - berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada à mesa, que fez saltar alouça.

- Jorge! - gritou Luísa, agarrando-lhe no braço.

Mas Juliana fugira da sala, correndo.

- E logo na rua! - exclamou Jorge. - Faze-lhe as contas e que se vá. Ah! Estou farto! Nem maisum dia! Se a tomo a ver, desfaço-a! Até que enfim! Chegou-me a minha vez!

Foi buscar o paletó, muito excitado, e antes de sair, voltando à sala:

- E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora a mais! Há quinze dias que a trago aquiatravessada. Para a rua!

Luísa veio para o quarto quase sem se poder suster. Estava perdida! Estava perdida! Uma multidão de idéias, todas extremas e insensatas, redemoinhava no seu cérebro como um montão de folhas secas numa ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas que Juliana lhe entregava, lendo: "Meu adorado Basílio!" Então uma cobardia imensa, amoleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana, ia suplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martirizasse!... E depois? Diria que a Juliana chorara, se atirara de joelhos! Mentiria, cobri-lo-ia de beijos... Era nova, era bonita, era ardente - convencê-lo-ia!

Juliana não estava no quarto. Subiu à cozinha; estava lá, sentada, com os olhos chamejantes, os braços nervosamente cruzados, numa raiva muda. Apenas viu Luísa, deu um salto sobre os calhares, e mostrando-lhe o punho, berrou:

- Olhe que a primeira vez que você me torne a falar como hoje, vai aqui tudo raso nesta casa!

- Cale-se, sua infame! - gritou Luísa.

- Você manda-me calar, sua p...! - E Juliana disse a palavra.

Mas a Joana correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez cair, com um gemido, sobre os joelhos.

(continua...)

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