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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Satisfeito com este raciocínio do amor-próprio, aplaudido pela consciência, desviou os olhos do zombeteiro s, e dobrou o jornal para o guardar. O cabeçalho do periódico trazia em letras graúdas -Diário do Grão-Pará. A princípio distraidamente, e logo depois com interesse, padre Antônio pôs-se a ler o título, os dizeres permanentes, o ano, a data que trazia o jornal. Era mesmo o Diário do Grão-Pará, então a folha mais importante da província, que espalhara as suas façanhas aos ventos da publicidade.

BELÉM, 20 DE DEZEMBRO DE 18...

A folha estava datada de Belém. Lendo o nome da capital do Pará, o seu contentamento aumentou. Era em Belém, na capital, que se falava dele, na grande cidade comercial que é o empório da riqueza e civilização do Amazonas onde se resume toda a vida intelectual das duas províncias gêmeas.

Padre Antônio de Morais era célebre em Belém. Ali, na grande cidade, falavase nele àquela hora do dia. O Filipe do Ver-o-peso, o reitor do Seminário, o padre Azevedo estariam, talvez, lendo e relendo o famoso artigo, transportados de admiração e cheios de enternecimento.

E súbito lhe veio clara e perfeita a recordação da sua chegada à capital do Pará, quando fora para o Seminário, mandado pelo padrinho. Era então um rapazola de quinze anos, de negras melenas caídas sobre os olhos e de magras formas angulares de camponês robusto.

Recordava-se bem. A noite vinha, pesada e escura, envolvendo em lâminas de chumbo o horizonte curto de que se destacavam as torres da Sé, e mais longe as do Carmo, por cima do casario, sujo de pó vermelho, aglomerado em ruas estreitas. Renques de varas cercavam os espaços não edificados, abrigando mal da indiscrição dos transeuntes os poucos limpos quintais, logradouros de galináceos e de não raros suínos, escapos às vistas grossas dos fiscais da Câmara. Quase em frente ao Ver-o-peso, onde atracara a galeota do padrinho, o velho casarão do governo fechava a vasta praça verdejante, em que os sendeiros da polícia montada pastavam sossegados, sob o olhar cobiçoso de numerosos urubus, empoleirados no alto do telhado do Palácio, cujas janelas abertas de par em par pareciam haurir sofregamente a mesquinha aragem do mar, que os coqueiros se transmitiam dum para outro, no balanço indolente das palmas flexíveis. Os últimos raios do sol esbraseavam as vidraças poeirentas da igreja de Santo Alexandre, dando-lhe reflexos metálicos, duros à vista, e punham nas águas do canal uma réstia de luz fugitiva e trêmula. Um acendedor do gás rodeava o largo a passos apressados, armado duma vara, em cuja extremidade brilhava um ponto luminoso que, de longe, parecia um vaga-lume grande, estonteado, a procurar o abrigo dum mato protetor. A medida que o acendedor passava, uma sucessão de pontos luminosos pingava a indecisa claridade do último crepúsculo de manchas pálidas, que se ruborizavam pouco a pouco, dando aos objetos uma saliência fantástica. As árvores da praça pareciam afagar com as ramagens as nuvens negras que lhes passavam por cima, caminhando lentamente para o sul em esquadrão cerrado. Vultos de homens passavam devagar por baixo do arvoredo, projetando na selva a sombra comprida e esguia, e os corvos assumiam proporções enormes, cobrindo os telhados com as asas negras e inquietas.

Do lado do bairro de Santana um surdo murmúrio, o último ruído da agitação industrial, de carroças que se recolhiam, de quitandas que se levantavam, de portas que se fechavam, traduzia o fim do dia para os homens de trabalho que iam repousar, exaustos de calor e de fadiga.

(continua...)

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