Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Acontece muitas vezes aos tupinambás, quando se vêm recolhendo para suas casas, dos assaltos que deram em seus contrários, ajuntar-se grande soma deles, e virem-lhes no alcance até lhes não poderem fugir; e ser-lhes necessário esperá-los, o que fazem ao longo da água, onde se fortificam fazendo sua cerca de caiçá; o que fazem com muita pressa para dormirem ali seguros de seus contrários, mas com boa vigia; onde muitas vezes são cercados e apertados dos contrários; mas os cercados vêem por detrás desta cerca a quem está de fora, para empregarem todas as suas flechas à vontade, e os de fora não vêem quem lhes atira; e se não vêm apercebidos para os abalroarem, ou de mantimentos, para continuarem com o cerco, se tornam a recolher, por não poderem abalroar aos tupinambás como queriam. E estes assaltos, que os tupinambás vão dar aos tupinaés e outros contrários seus, lhes acontece também a eles por muitas vezes, do que ficam muito maltratados, se não são avisados primeiro, e apercebidos; mas as mais da vezes eles são os que ofendem a seus inimigos, e são mais prevenidos quando vêem nestas afrontas de mandar pedir socorro a seus vizinhos, e lho vêem logo dar com muita presteza.Quando os tupinambás estão cercados de seus contrários, as pessoas de mais autoridade dentre eles lhes andam pregando de noite para que se esforcem e pelejem como bons cavaleiros, e que não temam seus contrários, porque muito depressa se verão vingados deles porque lhes não tardará o socorro muito; e as mesmas pregações costumam fazer quando eles têm cercado seus contrários, e os querem abalroar; e antes que dêem o assalto, estando juntos todos à noite atrás, passeia o principal de redor dos seus, e lhes diz em altas vozes o que hão de fazer, e os avisa para que se apercebam, e estejam alerta; e as mesmas pregações lhes faz, quando andam fazendo as cercas de caiçá, para que se animem, e façam aquela obra com muita pressa; e quando os tupinambás pelejam no campo, andam saltando de uma banda para outra, sem estarem nunca quedos, assobiando, dando com a mão no peito, guardando-se das flechas que lhes lançam seus contrários, e lançando-lhes as suas com muita fúria.
C A P Í T U L O CLXX
Em que se declara que o tupinambá que matou o contrário, toma logo nome, e as cerimônias que nisso fazem.
Costuma-se, entre os tupinambás, que todo aquele que mata contrário, toma logo nome entre si, mas não o diz senão a seu tempo, que manda fazer grandes vinhos; e como estão para se poderem beber, tingem-se à véspera à tarde de jenipapo, e começam à tarde a cantar, e toda a noite, e depois que têm cantado um grande pedaço, anda toda a gente da aldeia rogando ao matador, que diga o nome que tomou, ao que se faz de rogar, e, tanto que o diz, se ordenam novas cantigas, fundadas sobre a morte daquele que morreu, e em louvores do que matou, o qual, como se acabam aquelas festas e vinhos, se recolhe para a sua rede, como anojado, por certos dias, e não come nêles certas coisas, que têm por agouro se as comer dentro daquele tempo.Todo tupinambá que matou na guerra ou em outra qualquer parte algum contrário, tanto que vem para casa, e é notório aos moradores dela da tal morte do contrário, costumam, em o matador entrando em casa, arremessarem-se todos ao seu lanço e tomarem-lhe as armas e todas as suas alfaias de seu uso, ao que ele não há de resistir por nenhum caso, e há de deixar levar tudo sem falar palavras; e como o matador faz estas festas deixa crescer o cabelo por dó alguns dias, e como é grande, ordena outros vinhos para tirar o dó; ao que faz nas vésperas cantadas, e ao dia que se hão de beber os vinhos se tosquia o matador e tira o dó; tornando-se a encher e tingir de jenipapo, o qual também se risca em algumas partes do corpo com o dente de cotia, em lavores; e dão por estas sarjaduras uma tinta com que ficam vivas, e enquanto o riscado vive, o têm por grande bizarria; e há alguns índios que tomaram tantos nomes, e se riscaram tantas vezes que não têm parte onde não esteja o corpo riscado.Costumam também as irmãs dos matadores fazerem as mesmas cerimônias que fizeram seus irmãos, tosquiando-se e tingin-do-se do jenipapo, e dando alguns riscos em si; e fazem o mesmo pelos primos a que também chamam irmãos, e fazem também suas festas com seus vinhos, como eles; e para se não sentir a dor do riscar, se lavam primeiro muito espaço com água muito quente, com que lhes entesa a carne e não sentem as sarjaduras; mas muitos ficam dela tão maltratados que se põem em perigo de morte.
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Que trata do tratamento que os tupinambás fazem aos que cativam, e a mulher que lhes dão.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.