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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Leu e releu a local, primeiro de relance, na ânsia de chegar-lhe ao fim, para gozar duma vez, a haustos largos, o incenso finíssimo do elogio entusiasta do gazeteiro paraense. Depois, devagar, soletrando as palavras, como o provador que sorve delicadamente o licor precioso e raro, repetiu a epígrafe, e notou com mágoa, que a correção tipográfica não era perfeita. O s final do seu apelido de família estava virado, por um descuido imperdoável do revisor, um erro que lhe irritava os nervos. Desde então, cada vez que corria os olhos pelo artigo, deleitando-se na leitura das frases encomiásticas, de que uma emanação sutil lhe tonteava o cérebro, o maldito erro tipográfico dançava-lhe diante da vista, tomando proporções estranhas e fantásticas, animando-se. Parecia que aquela letrazinha, comicamente retorcida, fazia-lhe caretas e o provocava com esgares bufos, duma ironia mordente e cáustica, que lhe amargurava o gozo inefável da vaidade satisfeita. Era como se no meio dum concerto de hosanas festivais, de entusiásticos aplausos, uma voz discordante lhe atirasse à cara a mentira de toda aquela glorificação em vida, que o Macário em apuros começara e que a parolice balofa e vaidosa do Felisberto, aproveitada por gazeteiros crédulos e desocupados, havia completado. Um assovio estridente, cortando uma salva de palmas, não produziria sobre o ator transportado de júbilo, efeito diverso do que aquele descuido de revisão, aquele cômico s virado, como um clown a dar cambalhotas no tapete, produzia na alma extasiada do missionário da Mundurucânia.

A princípio um grande desapontamento; depois uma desilusão profunda, logo substituída pela reação, do amor-próprio atuando sobre uma consciência maleável e bonacheirona. Ao menos representara bem o seu papel, e não era sua a culpa, se as circunstâncias e só as circunstâncias não lhe haviam permitido realizar realmente os feitos gloriosos, cuja fama vinha tão de improviso engrinaldar-lhe a fronte. Que outro sacerdote nas suas condições, no nosso século prosaico e interesseiro, abandonaria os cômodos duma vigararia sossegada e pouco trabalhosa, para aventurar-se em afanosa missão aos rios do interior da província, povoados de índios e de perigos sem número, passando fomes, frios, vigílias e árduos trabalhos, arriscando a vida, dormindo ao relento, calejando as mãos nos remos, e deixando-se martirizar pelos terríveis insetos das margens dos rios, e tudo por um pensamento de religião e caridade? D. Antônio imaginara a catequese em um grande vapor, o Cristóloro, com todas as comodidades e todas as solenidades; ele padre Antônio, a tentara numa velha montaria, numa casca de noz, privado de todos os recursos. Entretanto D. Antônio era um príncipe da Igreja, e ele um pobre vigário sertanejo, sem posição e sem nome. Que outro padre moço, recém-saído do Seminário grande, tendo diante de si um futuro plácido e tranqüilo de pároco bem pago e bem nutrido, se meteria nos ínvios matos da Mundurucânia, sem outro fim senão o de batizar índios, sem outro auxilio que não fossem o próprio esforço e a própria dedicação! D. Antônio era bispo, e doutrinava nas cidades, comodamente sentado na sua cadeira sagrada... Se padre Antônio de Morais não convertera índio algum, se não fora ferido pelos parintintins, não era porque se poupasse a trabalhos e sofrimentos, mentia a lenda jornalística, mas pela força das coisas, pelas circunstâncias especiais em que se achara, pela impossibilidade material em que se vira de continuar a viagem, depois da fuga de Macário. Mas, em compensação, sofrera tormentos cruéis, escapara de morrer flechado por mundurucus, de ser devorado por feras nos sertões do Sucundari e de ceder a uma moléstia pertinaz, resultante das fadigas e privações aturadas ao serviço do Senhor.

E fazendo justiça aos seus sentimentos, no ardor da sua própria apologia perguntava a si mesmo, sondando a consciência desinteressada, qual fora o móvel que o fizera deixar Silves; porque, tendo perdido a roupa e o farnel da viagem no sítio do Guilherme, teimara em viajar na pequena montaria de pesca, remando como qualquer caboclo; porque passara noites sem dormir; porque suportara com paciência as picadas dos carapanãs; porque se afoitara a dirigir a palavra aos índios do ubá; porque fizera tudo isso? Algum pensamento egoísta o guiava em passos tão arriscados e cheios de abnegação? Não, decerto, respondia a complacente consciência, fora o ardor religioso, o amor da catequese e da civilização do Amazonas que o levara a tais extremos de dedicação e de sacrifício. Logo, concluiu com a lógica admirável aprendida nas lutas com o maior teólogo do Norte; logo nem por estar vivo e são, nem por ter deixado de converter mundurucus, era menos digno dos elogios da fama e da reputação alcançada nas duas províncias que o Amazonas banha.

(continua...)

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