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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Como os tupinambás são muito belicosos, todos os seus fundamentos são como farão guerra aos seus contrários; para o que se ajuntam no terreiro da sua aldeia as pessoas mais principais, e fazem seus conselhos, como fica declarado; onde assentam a que parte hão de ir dar a dita guerra, e em que tempo; para o que se notifica a todos que se façam prestes de arcos e flechas, e alguns paveses, que fazem de um pau mole e muito leve, e as mulheres entendem em lhes fazerem a farinha que hão de levar, a que chamam de guerra; porque dura muito, para se fazer a dita guerra, de onde tomou o nome; e como todos estão prestes de suas armas e mantimentos, às noites antes da partida anda o principal pregando ao redor das casas, e nessa pregação lhes diz onde vão, e a obrigação que têm de ir tomar vingança de seus contrários, pondo-lhes diante a obrigação que têm para o fazerem e para pelejarem valorosamente; prometendo-lhes vitória contra seus inimigos, sem nenhum perigo da sua parte, de que ficará deles memória para os que após eles vierem cantar em seus louvores; e que pela manhã comecem de caminhar. E em amanhecendo, depois de almoçarem, toma cada um seu quinhão de farinha às costas, e a rede em que há de dormir, seu pavês e arco e flechas na mão, e outros levam além disto uma espada de pau a tiracolo. Os roncadores levam tamboril, outros levam buzinas, que vão tangendo pelo caminho, com que fazem grande estrondo, como chegam à vista dos contrários. E os principais deste gentio levam consigo as mulheres carregadas de mantimentos, e eles não levam mais que a sua rede e armas às costas, e arco e flechas na mão. E antes que se abalem, faz o principal capitão da dianteira, que eles têm por grande honra, o qual vai mostrando o caminho e o lugar onde hão de dormir cada noite. E a ordenança com que se põe a caminho, é um diante do outro, porque não sabem andar de outra maneira; e como saem fora dos seus limites, e entram pela terra dos contrários, levam ordinariamente suas espias adiante que são sempre mancebos muito ligeiros, que sabem muito bem este ofício; e com muito cuidado, os quais não caminham cada dia mais de légua e meia até duas léguas, que é o que se pode andar até as nove horas do dia, que o tempo em que aposentam seu arraial, o que fazem perto dágua, fazendo suas choupanas, a que chamam tejupares, as quais fazem arruadas, deixando um caminho pelo meio delas; e desta maneira vão fazendo suas jornadas, fazendo fogos nos tajupares.


C A P Í T U L O CLXVIII
Que trata de como os tupinambás dão em seus contrários.


Tanto que os tupinambás chegam duas jornadas da aldeia de seus contrários não fazem fogo de dia, por não serem sentidos deles pelos fumos que se vêm de longe; e ordenam-se de maneira que possam dar nos contrários de madrugada, e em conjunção de lua cheia para andarem a derradeira jornada de noite pelo luar, e tomarem seus contrários desapercebidos e descuidados; e em chegando à aldeia dão todos juntos tamanho urro, gritando, que fazem com isso e com suas buzinas e tamboris grande espanto; e desta maneira dão o seu salto nos contrários; e do primeiro encontro não perdoam a grande nem a pequeno, para o que vão apercebidos de uns paus à feição de arrochos, com uma quina por uma ponta, com o que da primeira pancada que dão na cabeça ao contrário, lha fazem em pedaços. E há alguns destes bárbaros tão carniceiros que cortam aos vencidos, depois de mortos, suas naturas, assim aos machos como às fêmeas, as quais levam para darem a suas mulheres que as guardam depois de mirradas no fogo, para nas suas festas as darem de comer aos maridos por relíquias, o que lhes dura muito tempo; e levam os contrários que não mataram na briga, cativos, para depois os matarem em terreiro com as festas costumadas.No despojo desta guerra não tem o principal coisa certa, e cada um leva o que pode apanhar, e quando os vencedores se recolhem, põem fogo às casas da aldeia em que deram, que são cobertas de palmas até o chão. E recolhem-se logo andando todo o que lhes resta do dia, e toda a noite pelo luar com o passo mais apressado, trazendo suas espias detrás, por se arrecearem de se ajuntarem muitos do contrário, e virem tomar vingança do acontecido a seus vizinhos, como cada dia lhes acontece. E sendo caso que os tupinambás achem seus contrários apercebidos com a sua cerca feita, e eles se atrevem a os cercar, fazem-lhes por de redor outra contracerca de rama e espinhos muito liada com madeira que metem no chão, a que chamam caiçá, pela qual enquanto verde não há coisa que os rompa, e ficam com ela seguros das flechas dos contrários, a qual caiçá fazem bem chegada à cerca dos contrários, e de noite falam mil roncarias, e jogam as pulhas de parte a parte, até que os tupinambás abalroam a cerca ou levantam cerco, se se não atrevem com ele, ou por lhes faltar o mantimento.


C A P Í T U L O CLXIX
Que trata de como os contrários dos tupinambás dão sobre eles quando se recolhem.

(continua...)

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