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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Atirou o chicote para o chão, saiu da sala.

O Castro, lívido de raiva, tinha agarrado o chapéu; e fixando terrivelmente Leopoldina:

- Agradecido! Conte comigo quando quiser!

- Mas que foi? Que foi?

- Até à vista! - rugiu o Castro. - E indo apanhar o chicote, sacudindo-o ameaçadoramente para oquarto, onde Luísa entrara:

- Grande bêbeda! - murmurou com rancor. E saiu, atirando com as portas.

Leopoldina, atônita, veio encontrar Luísa no quarto a pôr o chapéu, com as ainda trêmulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita.

- Chegou-me cá uma coisa, e enchi-lhe a cara de chicotadas - disse ela.

Leopoldina esteve um momento a olhá-la petrificada.

- Bateste-lhe?... - E de repente dasatou a rir, convulsivamente. - O Castro de óculos, o Castrocoberto de chicotadas! O Castro a levar uma coça! - Atirou-se para cima da chaise longue, rolou-se; sufocava. - Até já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil réis e ser corrido a chicote!... Com o seu próprio chicote!... Oh! Era para estourar!...

- O pior foi o candeeiro - disse Luísa.

Leopoldina ergueu-se, de salto.

E o azeite! Ai que agouro! - Correu à sala. Luísa veio encontrá-la diante da nódoa escura, com os braços cruzados, como se visse, toda pálida, catástrofes avizinharem-se. - Que agouro, Santo Deus!

- Deita-lhe sal depressa.

- Faz bem?

- Quebra o agouro.

Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nódoa;

- Ai! Nossa Senhora permita que não haja nada mau! Mas que caso este, que caso este! Eagora, filha?

Luísa encolheu os ombros.

- Eu sei cá! Sofrer!...

CAPÍTULO XII

Nessa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de gala, encontrou a secretaria fechada e voltou para casa ao meio-dia. Joana à porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancela em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, surpreendeu Juliana comodamente deitada na chaise longue, lendo tranqüilamente o jornal.

Ergueu-se, muito vermelha, mal o viu, balbuciou:

- Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte...

- Que se pôs a ler o jornal, hem?... - disse Jorge, apertando instintivamente o castão da bengala.- Onde está a senhora?

- Deve estar para a sala de jantar - disse Juliana, que se pôs logo a varrer, muito apressada.

Jorge não encontrou Luísa na sala de jantar; foi dar com ela no quarto dos engomados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito aplicada e muito desconsolada.

- Tu estás a engomar? - exclamou.

Luísa corou um pouco, pousou o ferro. - A Juliana estava adoentada, juntara-se uma carga de roupa...

- Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora?

A sua voz era tão áspera, que Luísa fez-se pálida, murmurou:

- Que queres tu dizer?

- Quero dizer que te venho encontrar a ti a engomar, e que a encontrei a ela lá embaixo muitorepimpada na tua cadeira, a ler o jornal!

Luísa, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão trêmula...

- Tu não podes fazer idéia do que aqui vai por fazer - ia dizendo. - É a limpeza, são osengomados, é um servição. A pobre de Cristo tem estado doente...

- Pois se está doente que vá para o hospital!

- Não, também não tens razão!

Aquela insistência em defender a outra, que se repoltreava embaixo na sua chaise longue, exasperou-o:

- Dize cá, tu dependes dela? Havia de dizer que tens medo dela!

- Ah! Se estás com esse gênio! - fez Luísa com os beiços trêmulos, uma lágrima já naspálpebras.

Mas Jorge continuava muito zangado:

- Não, essas condescendências hão de acabar por uma vez! Ver aquele estafermo, com os péspara a cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendê-la, a fazer-lhe o serviço, ah! Não! É necessário acabar com isso. Sempre desculpas! Sempre desculpas! Se não pode que arreie. Que vá para o hospital, que vá para o inferno.

Luísa lavada em lágrimas assoava-se, soluçando.

- Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras? Ela não respondia, num grande pranto.

- Por que choras, filha? - perguntou ele com uma impaciência comovida, chegando-se a ela.

- Para que me falas tu assim? - dizia, toda soluçante, limpando os olhos. Sabes que estoudoente, nervosa, e tens mau gênio para mim! O que me sabes dizer são coisas desagradáveis.

- Coisas desagradáveis! Minha filha, eu disse-te lá nada desagradável! - E abraçou-a, ternamente.

Mas ela desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços:

(continua...)

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