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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


São os tupinambás mui sujeitos à doença das boubas, que se pegam uns aos outros mormente enquanto são meninos, porque se não guardam de nada; e têm para si que as hão de ter tarde ou cedo, e que o bom é terem-nas enquanto são meninos, os quais não fazem outro remédio senão fazê-las secar, quando lhe saem para fora, o que fazem com as tingirem com jenipapo; e quando isto não basta, curam-lhes estas bostelas das boubas com a folha de caraoba, de cuja virtude temos já feito menção, e como se estas bostelas secam, têm para si que estão sãos deste mau humor, e na verdade não têm dores nas juntas como se elas secam. Em alguns tempos e lugares, mais que outros, são estes índios doentes de terçãs e quartãs, que lhes nascem de andar pela calma, sem nada na cabeça, e de quando estão mais suados se banharem com água fria, metendo-se nos rios e nas fontes, muitas vezes ao dia pelo tempo da calma; ou quando trabalham, que estão cansados e suados; às quais febres não fazem nenhuma cura senão comendo uns mingaus, que são uns caldos de farinha de carimã, como já fica dito, que são muito leves e sadios; e untam-se com água do jenipapo, com o que ficam todos tintos de preto, ao que têm grande devoção.Curam estes índios algumas apostemas e bexigas com sumo de ervas de virtude, que há entre eles, com que fazem muitas curas muito notáveis, como já fica dito atrás; e quando se sentem carregados da cabeça, sarjam nas fontes, e aos meninos sarjam-nos na pernas, quando têm febre, mas em seco; o que fazem as velhas com um dente de cotia muito agudo, que têm para isso.Curam as grandes feridas e flechadas com umas ervas, que chamam cabureíba, que é milagrosa, e com outras ervas, de cujas virtudes fica dito atrás no seu título; com as quais curam o cano, que se lhes enche muitas vezes de câncer; e as flechadas penetrantes e outras feridas, de que se vêem em perigo, curam por um estranho modo, fazendo em cima do fogo um leito de varas largas umas das outras, sobre as quais deitam os feridos, com as feridas boca abaixo em cima deste fogo, pelas quais com a quentura se lhes sai todo o sangue que têm dentro e a umidade; e ficam as feridas sem nenhuma umidade; as quais depois curam com óleo e o bálsamo, ou ervas, de que já fizemos menção, com o que têm saúde poucos dias; e não há entre este gentio médicos assinalados, mas são-no muito bons os recochilhados. Destes índios andarem sempre nus, e das fregueirices que fazem dormindo no chão, são muitas vezes doentes de corrimentos, a que eles chamam caruaras, de que lhes doem as juntas; das quais são os feiticeiros grandes médicos, chupando-lhes com a boca o lugar onde lhes dói, onde às vezes lhes metem os dentes, e tiram da boca algum pedaço de ferro, ou outra coisa, que lhes metem na cabeça tirar daquele lugar onde chupavam, e que quando lhes doía lhes saíra fora, onde lhes tingem com jenipapo, com que dizem que se acha logo bom.


C A P Í T U L O CLXVI
Que trata do grande conhecimento que os tupinambás têm da terra.


Têm os tupinambás grande conhecimento da terra por onde andam, pondo o rosto no sol, por onde se governam; com o que atinam grandes caminhos pelo deserto, por onde nunca andaram; como se verá pelo que aconteceu já na Bahia, de onde mandaram dois índios destes tupinambás degredados pela justiça por seus delitos, para Rio de Janeiro, onde foram levados por mar; os quais se vieram de lá, cada um por sua vez, fugidos, afastando-se sempre do povoado, por não ser sentidos por seus contrários; e vinham sempre caminhando pelos matos; e desta maneira atinaram com a Bahia, e chegaram à sua aldeia, de onde eram naturais a salvamento, sendo caminho mais de trezentas léguas.Costuma este gentio, quando anda pelo mato sem saber novas do lugar povoado, deitar-se no chão, e cheirar o ar, para ver se lhe cheira a fogo, o qual conhecem pelo faro a mais de meia légua, segundo a informação de quem com eles trata mui familiarmente; e como lhe cheira a fogo, se sobem às mais altas árvores que acham, em busca de fumo, o que alcançam com a vista de mui longe, o qual vão seguindo, se lhes vem bem ir aonde ele está; e se lhes convém desviar-se dele, o fazem antes que sejam sentidos; e por os tupinambás terem este conhecimento da terra e do fogo, se faz muita conta deles, quando se oferece irem os portugueses à guerra a qualquer parte, onde os tupinambás vão sempre adiante, correndo a terra por serem de recado, e mostrando à mais gente o caminho por onde hão de caminhar, e o lugar onde se hão de aposentar cada noite.


C A P Í T U L O CLXVII
Que trata de como os tupinambás se apercebem para irem à guerra.

(continua...)

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