Por Eça de Queirós (1878)
E Leopoldina voltando-se para Luísa:
- Comprou uma quinta magnífica em Bordéus, um palácio!...
- Uma choupana, uma choupana...
- E naturalmente vai dar festas magníficas!...
- Modestos chás, modestos chás... - dizia, repoltreando-se.
E riam ambos de um modo muito afetado.
O Castro curvou-se então para Luísa:
- Tive o gosto de ver Vossa Excelência há tempos, na Rua do Ouro...
- Creio que também me lembro... - respondeu ela.
E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais à beira do sofá e depois de sorrir:
- Pois eu mandei-o chamar porque temos uma coisa a dizer-lhe.
- Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luísa, percorria-a com atrevimento, palpava-a.
- Aqui está o que é. Eu vou direita às coisas, sem preâmbulos. - E teve outro risinho. - Aqui aminha amiga está num grande apuro, e precisa um conto de réis.
Luísa acudiu, com a voz quase sumida:
- Seiscentos mil réis...
- Isso não importa - disse Leopoldina com uma indiferença opulenta estamos a falar com ummilionário! A questão é esta: quer o meu amigo fazer o favor?
O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, ambígua:
- Certamente, certamente...
Leopoldina ergueu-se logo:
- Bem. Eu tenho ali no quarto a costureira à espera. Deixo-os falar do negócio.
E à porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaçando-o com o dedo, a voz muito alegre:
- Que o juro seja pequeno, hem?
E saiu, rindo.
O Castro disse logo a Luísa, curvando-se:
- Pois minha senhora, eu...
- A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou numa grande aflição de dinheiro. E dirijo-me a si...São seiscentos mil réis... Procurarei pagar, o mais depressa...
- Oh, minha senhora! - fez o Castro com um gesto generoso. Começou então a dizer quecompreendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido há mais tempo... Sempre tivera uma grande simpatia por ela... Uma grande simpatia!...
Luísa calava-se, com os olhos baixos. Ele foi pousar o chicote na jardineira, veio sentar-se no sofá junto dela. Vendo o seu ar embaraçado, pediu-lhe que não se afligisse. Valia lá a pena por questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a ele. Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, eram indiscretos... - E falando tinha-lhe tomado a mão; o contato daquela pele apetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o respirar alto. Luísa, toda constrangida, nem retirara a mão; e Castro abrasado - como uma verbosidade um pouco rouca prometia tudo, tudo o que ela quisesse!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o pescoço muito branco.
- Seiscentos mil réis..., o que quiser!...
- E quando? - disse Luísa muito perturbada.
Ele via-lhe o seio arfar - e sob a irrupção de um desejo brutal:
- Já!
Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quase lhe mordeu a face.
Luísa ergueu-se com o salto de uma mola de aço.
Mas o Castro escorregara sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe sofregamente os vestidos:
- Dou-lhe o que quiser, mas sente-se! Há anos que tenho uma paixão por si. Escute! - Os seusbraços trêmulos subiam; envolviam-na, e o que sentia das formas inflamava-o.
Luísa, sem ruído, repelia-lhe as mãos, recusava-se.
- O que quiser! Mas ouça! - balbuciava ele puxando-a violentamente para si. A concupiscênciabrutal dava-lhe uma respiração de touro.
Então, com um puxão desesperado às saias, ela soltou-se, recuando aflita:
- Deixe-me! Deixe-me!
O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braços abertos, rompeu para ela. Diante daquela luxúria bestial, Luísa, indignada, agarrou instintivamente de
sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte chicotada na mão.
A dor, a raiva, o desejo enfureceram-no.
- Seu diabo! - rosnou, rangendo os dentes.
Ia-se arremessar. Mas Luísa então, erguendo o braço, revolvida por uma cólera frenética, atiroulhe chicotadas rapidamente pelos braços, pelos ombros - muito pálida, muito séria, com uma crueldade a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar aquela carne gorda.
O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braços diante da cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candeeiro de porcelana oscilou, desequilibrou-se, rolou no chão com estilhaços de louça, e uma nódoa escura de azeite alastrou-se na esteira.
- Ai está! Vê? - disse Luísa toda a tremer, apertando ainda convulsivamente o chicote.
Leopoldina ao barulho correu, do quarto.
- Que foi? Que foi?
- Nada, estávamos a brincar - disse Luísa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.