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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

"PADRE ANTÔNIO DE MORAIS. - Um estimado negociante de Silves, o Sr. Costa e Silva, achando-se de passagem em Maués, ali encontrou noticias deste arrojado missionário, que toda a gente supunha morto às mãos dos parintintins, segundo a narrativa do seu companheiro de viagem. Parece que o ardente vigário de Silves escapou milagrosamente a uma morte afrontosa, e tem prosseguido na gloriosa tarefa de catequizar os índios da Mundurucânia. Diz-se mesmo que padre Antônio conseguiu trazer ao aprisco do Senhor, entre outras ovelhas desgarradas, um célebre tuxaua, nomeado pelas suas façanhas guerreiras, e entre os pobres moradores do Canumã temido pelas suas muitas tropelias. Se isso é verdade, como assegura o nosso informante, digno de todo o crédito, padre Antônio tem prestado e está prestando inolvidáveis serviços à religião e à civilização do Amazonas. Não conviria que o governo mandasse alguém procurar na Mundurucânia esse novo Anchieta, que estará talvez, à hora em que escrevemos, perdido nos sertões do Sucundari, sem meios de regressar à sua paróquia? O governo não deve ficar indiferente à sorte dum sacerdote que tão digno se tem feito da estima e veneração dos seus contemporâneos.

"Padre Antônio é nosso compatrício. Filho do nosso amigo senhor capitão Pedro Ribeiro de Morais, uma das influências conservadoras do Igarapé-mirim, fez brilhantes estudos no Seminário maior, sendo o mais aproveitado discípulo do reverendo padre Azevedo, o maior teólogo do Norte do Império."

A velha tapuia do sítio de Tucunduva facilmente aceitou a proposta que lhe fizeram de hospedar a Clarinha, enquanto o avô e o irmão iam levar o senhor padre a Silves. O plano de S. Rev.ma era procurar em Silves um sitiozinho, em que pudesse estabelecer a afilhada de padre João da Mata longe das vistas do Chico Fidêncio e dos falatórios invejosos do beatério, numa pequena situação poética e retirada como o sítio de João Pimenta, uma reprodução do encantador bom-retiro que o seu amestrado colega soubera criar à margem do furo da Sapucaia, entre castanheiros gigantescos e sombrios e laranjeiras floridas, dum perfume afrodisíaco de noivado. Aí poderiam viver horas esquecidas, afastados do bulício da freguesia, a salvo dos comentários azedos da grei dos pedreiros-livres, com o recém-converso Chico Fidêncio à frente; ai libaria ele o néctar delicioso do amor daquela mameluca feiticeira, cujas mãos delicadas e polpudas entrelaçariam olorosas flores aos louros da coroa de glória com que a gratidão popular lhe enalteceria a fronte inteligente. Um sonho encantador que S. Rev.ma comunicou à amante, com muitas carícias e promessas, à sombra de uma goiabeira do porto, afirmando que por pouco tempo a deixava naquele exílio de Tucunduva, e não tardaria em a mandar buscar, se não pudesse vir pessoalmente, para não despertar suspeitas. Do Tucunduva a Silves havia razoável distância. A largura do Amazonas, interposta entre o sítio do rio Ramos e o Paraná-mirim do Saracá, favorecia o mistério. Mais tarde, quando a curiosidade pública estivesse amortecida e os silvenses, fartos de olhar e admirar o seu ressuscitado vigário, tivessem voltado aos seus lazeres ordinários, a Clarinha, envolta sempre em romanesca sombra, iria para algum sítio do rio Urubus ou mesmo do lago Saracá, onde o padre a visitaria a miúdo, salvando as aparências, e não acordando a desconfiança do Chico Fidêncio do sono profundo em que a mergulhara a inventiva feliz do prestimoso Macário.

Clarinha não gostou do engenhoso plano que S. Rev.ma lhe expunha entre mil beijos e carícias. Na ingenuidade do seu amor de mameluca, confiante e sincero, não compreendia a necessidade de todos esses mistérios e precauções de que se queria cercar o senhor padre, para esconder aos olhos dos seus paroquianos as relações com uma moça solteira e livre. Um grande pesar lhe causava o receio manifestado por S. Rev.ma de que se conhecessem esses amores que, havia bem pouco ainda, nos delírios da paixão, ele confessara serem a suprema felicidade de toda a sua vida de privações e misérias. Repugnava à sua natureza franca aquela hipocrisia. Dera-se sem reserva, sem pensamento oculto ou interesseiro, sabendo perfeitamente que dava o que tinha de mais precioso, entregando vida, alma e coração àquele belo padre melancólico que a fazia sonhar com Anjos do Senhor. Agora que tudo estava consumado, que lhe importava que todos o soubessem? Não sentia vergonha alguma da sua falta, julgava-a muito natural, e qualquer moça, colocada nas suas circunstâncias, faria a mesma coisa. O seu espírito, elevado pela educação que lhe dera o padrinho acima da sua condição social, não podia simpatizar com os da sua classe, e aspirava a relações mais cultas e finas. Padre Antônio estava tão acima dos brancos que ela conhecera na sua tranqüila e desconhecida existência, como esses brancos, regatões na maior parte, eram superiores aos reles tapuios, semicivilizados, com quem a sua origem e condição a obrigavam a tratar. Como moça de aspirações, escolhera para amante o homem mais distinto que encontrara até o momento em que o coração falou. Se esse homem não podia ser seu marido, que importava isso? A sua avó só casara depois de ter tido a Benedita. Esta não casara nunca, e de seus amores com padre João da Mata nascera a Clarinha, pelo menos, ela assim o' supunha agora. Que havia de admirar que Clarinha seguisse o exemplo da mãe e da avó?

As despedidas foram tristes. Padre Antônio embarcara no ubá, e Clarinha, de pé sobre a ponte do sítio, seguira com os olhos rasos de lágrimas a embarcação que se afastava, levando o eleito do seu coração a lugar donde talvez não voltasse a consolar-lhe a triste viuvez. Mas quando o ubá se sumiu por detrás dum espigão da margem, perdendo de vista o vulto encantador da rapariga, padre Antônio pôs-se a pensar em Silves, nos seus paroquianos, na recepção que o esperava e no futuro que o aguardava lá, bem longe desse paraíso que deixara entre os castanhais sombrios.

(continua...)

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