Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Costumam os tupinambás que vindo qualquer deles de fora, em entrando pela porta, se vai logo deitar na sua rede, ao qual se vai logo uma velha ou velhas, e põem-se em cócaras diante dele a chorá-lo em altas vozes; no qual pranto lhe dizem as saudades que dele tinham, com sua ausência, os trabalhos que uns e outros passaram; a que os machos lhes respondem chorando em altas vozes, e sem pronunciarem nada, até que se enfadam, e mandam às velhas que se calem, ao que estas obedecem; e se o cho-, rado vem de longe, o vêm chorar desta maneira tôdas as fêmeas mulheres daquela casa, e as parentas que vivem nas outras, e como acabam de chorar, lhe dão as boas-vindas e trazem-lhe de comer, em um alguidar, peixe, carne e farinha, tudo junto posto no chão, o que ele assim deitado come; e como acaba de comer lhe vêm dar as boas-vindas todos os da aldeia um e um, e lhe perguntam como lhe foi pelas partes por onde andou; e quando algum principal vem de fora, ainda que seja da sua roça, o vêm chorar todas as mulheres de sua casa, uma e uma, ou duas em duas, e lhe trazem presentes para comer, fazendo-lhe as cerimônias acima ditas.Quando morre algum índio, a mulher, mãe e parentas o choram com um tom mui lastimoso, o que fazem muitos dias; no qual choro dizem muitas lástimas, e magoam a quem as entende bem; mas os machos não choram, nem se costuma entre eles chorar por ninguém que lhes morra.Os tupinambás se prezam de grandes músicos, e, ao seu modo, cantam com sofrível tom, os quais têm boas vozes; mas todos cantam por um tom, e os músicos fazem motes de improviso, e suas voltas, que acabam no consoante do mote; um só diz a cantiga, e os outros respondem com o fim do mote, os quais cantam e bailam juntamente numa roda, na qual um tange um tamboril, em que não dobra as pancadas; outros trazem um maracá na mão, que é um cabaço, com umas pedrinhas dentro, com seu cabo por onde pegam; e nos seus bailes não fazem mais mudanças, nem mais continências que bater no chão com um só pé ao som do tamboril; e assim andam todos juntos à roda, e entram pelas casas uns dos outros; onde têm prestes vinho, com que os convidar; e às vezes anda um par de moças cantando entre eles, entre as quais há também mui grandes músicas, e por isso mui estimadas.Entre este gentio são os músicos mui estimados, e por onde quer que vão, são bem agasalhados, e muitos atravessaram já o sertão por entre seus contrários, sem lhes fazerem mal.
C A P Í T U L O CLXIII
Que trata como os tupinambás agasalham os hóspedes.
Quando entra algum hóspede em casa dos tupinambás, logo o dono do lanço da casa, onde ele chega, lhe dá a sua rede e a mulher lhe põe de comer diante, sem lhe perguntarem quem é, nem de onde vem, nem o que quer; e como o hóspede come, lhe perguntam pela sua língua: "Vieste já ?" e ele responde "Sim"; as quais boas-vindas lhe vêm dar todos os que o querem fazer, e depois disso praticam muito devagar. E quando algum hóspede estrangeiro entra em alguma destas aldeias, vem pregando, e assim anda correndo toda a aldeia até quando dá com a casa do principal, e sem falar a ninguém deita-se numa qualquer que acha mais à mão, onde lhe põem logo de comer, e como acaba de comer, lhe manda o principal armar uma rede junto da porta do seu lanço de uma banda, e ele arma a sua da outra banda, ficando a porta no meio para caminho de quem quiser entrar, e assim os da aldeia lhe vêm dar as boas-vindas, como acima está declarado; e neste lugar se põe a praticar o principal com o hóspede muito devagar, em redor dos quais se vêm assentar os índios da aldeia, que querem ouvir novas, onde ninguém não responde, nem pergunta coisa alguma, até que o principal acabe de falar, e como dá fim às práticas, lhe diz que descanse de seu vagar; e depois, se o principal despede do hóspede, vêm outros falar com ele, para saberem novas daquelas partes de onde o hóspede vem; e ao outro dia se ajunta este principal em outra casa, onde se ajuntam os anciãos da aldeia, e praticam sobre a vinda do índio estrangeiro, e sobre as coisas que contou de onde vinha; e lançam suas contas se vem de bom título ou não; e se é seu contrário, de maravilha escapa que não o matem, e lhe façam seu ofício com muita festa e regozijo; ao qual hóspede choram as velhas também antes que coma, como atrás fica declarado.
C A P Í T U L O CLXIV
Que trata do uso que os tujrinambás têm em seus conselhos e das cerimônias que neles usam.
Quando o principal da aldeia quer praticar algum negócio de importância, manda recado aos índios de mais conta, os quais se ajuntam no meio do terreiro da aldeia, onde em estacas que têm para isso metidas no chão, armam suas redes de redor da do principal, onde também se chegam os que querem ouvir estas práticas, porque entre eles não há segredo; os quais se assentam todos em cócaras, e como tudo está quieto, propõe o principal sua prática, a que todos estão muito atentos; e como acaba sua oração, respondem os mais antigos cada um por si; e quando um fala, calam-se todos os outros, até que vêm a concluir no que hão de fazer; sobre o que têm suas alterações, muitas vezes. E alguns dos principais que estão neste conselho, levam algumas cangoeiras de fumo, de que bebem; o que começa de fazer o principal primeiro; e para isso leva um moço, que lhe dá a can-goeira acesa, e como lhe toma a salva, manda a cangoeira a outro que não a tem, e assim se revezam todos os que não a têm, com ela; o que estes índios fazem por autoridade, como os da Índia comem o bétele, em semelhantes ajuntamentos; o que também fazem muitos homens brancos, e todos os mamelucos; porque tomam este fumo por mantença, e não podem andar sem ele na boca, aos quais dana o bafo e os dentes, e lhes faz mui ruins cores. Esta cangoeira de fumo é um canudo que se faz de uma folha de palma seca, e tem dentro três e quatro folhas secas de erva-santa, a que os índios chamam petume, a qual cangoeira atam pela banda mais apertada com o fio, onde estão as folhas de petume, e acendem esta cangoeira pela parte das folhas de petume, e como tem brasa, a metem na boca, e sorvem para dentro o fumo, que logo lhe entra pelas cachagens, mui grosso, e pelas goelas, e sai-lhe pelas ventas fora com muita fúria: como não podem sofrer este fumo, tiram a cangoeira fora da boca.
C A P Í T U L O CLXV
Que trata de como se este gentio cura em suas enfermidades.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.