Por Eça de Queirós (1888)
Carlos e os outros, sahindo á pressa, viram ao pé da tribuna real um magote de homens - onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os rapazes corriam com curiosidade, já excitados, apinhando-se, alçando-se em bicos de pés; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as cordas da pista, apesar dos repellões dos policias: - e agora era uma massa tumultuosa de chapéos altos, de fatos claros, empurrando-se contra as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente.
E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do montão um dos sujeitos que correra no premio dos Productos, o que montava Jupiter, ainda de botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso, perdido, injuriando o juiz das corridas, o Mendonça, que arregalava os olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o, queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o pé, tremulo, livido, gritando que não se importava nada com protestos! Perdera a corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira!
Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.
- Fóra! Fóra!
Alguns tomavam o partido do jockey; já aos lados outras questões surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o Mendonça decidira pelo Pinheiro, que montava Escossez, por ser intimo d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava
aquella insinuação infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados, tratavam-se furiosamente de pulhas.
E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de pintinhas, procurava romper, erguia os braços, exclamava, n'uma voz supplicante e rouca:
- Por quem são, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia... Eu tenho experiencia!
De repente o vozeirão do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro. Diante do jockey, sem chapéo, com a face a estoirar de sangue, gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto!
Mas vir dizer que ha ladrões, era só d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca devia ter pertencido ao Jockey-Club! - O outro, agarrado pelos amigos, esticando o pescoço magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo. Então o Vargas, com um encontrão para os lados, abriu espaço, repuxou as mangas, berrou:
- Repita lá isso! repita lá isso!
E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de ordem e morra, chapéos pelo ar, baques surdos de murros.
Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia; senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando espavoridamente as carruagens; - e um sopro grosseiro de desordem relles passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postiça de civilisação e a attitude forçada de decoro... Carlos achou-se ao pé do marquez, que exclamava, pallido:
- Isto é incrivel, isto é incrivel!...
Carlos, pelo contrario, achava pittoresco.
- Qual pittoresco, homem! É uma vergonha, com todos esses estrangeiros!
No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao official de guarda, um moço pequenino mas decidido, que, em bicos de pés, aconselhava para os lados, n'uma voz de orador, «cavalheirismo» e «prudencia...» O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado ao braço d'um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho, arranjando o chapéo achatado n'uma pasta. A musica tocava a marcha do Propheta; em quanto o desgraçado juiz das corridas, o Mendonça, encostado á tribuna real, com os braços cahidos, aparvalhado, balbuciava n'um resto d'assombro:
- Isto só a mim! Isto só a mim!
O marquez, n'um grupo a que se juntára o Clifford, Craft, e Taveira, continuava a vociferar:
- Então, estão convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto é um paiz que só supporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras coisas civilisadas lá de fóra, necessitam primeiro gente educada. No fundo todos nós somos fadistas! Do que gostamos é de vinhaça, e viola, e bordoada, e viva lá seu compadre! Ahi está o que é!
Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho todo esticava mais correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso, assegurando, com um ar de consolação, que conflictos eguaes succedem em toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil. Dizia-se mesmo que elle ia retirar a Mist. E alguns davam-lhe razão. Que diabo! Era aviltante para um bello animal de raça correr n'um hyppodromo sem ordem e sem decencia, onde a todo o momento podiam reluzir navalhas.
- Ouve cá, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos, chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.