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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Não, realmente tinha vontade de outra coisa, não sabia bem de quê! As vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um tédio mole.) Eram tão sensaborões todos os homens que conhecia! Tão corriqueiros todos os prazeres que encontrara! Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar - ser mulher de um salteador, andar no mar; num navio pirata... Enquanto ao Fernando, o amado Fernando dava-lhe náuseas! E outro que viesse seria o mesmo. Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus!

E, depois de escancarar a boca, num bocejo de fera engaiolada:

- Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh, céus! Ficaram um momento caladas.

- Mas, que se lhe há de dizer, a esse homem? - perguntou de repente Luísa.

Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiçosa:

- Diz-se-lhe que se precisa um conto de réis, ou seiscentos mil réis... Que se lhe há de entãodizer? Que se lhe paga.

- Como?

Leopoldina disse, deitada, com os olhos no teto:

- Em afeto.

- Oh! És horrível! - exclamou Luísa, exasperada. - Vês-me aqui desgraçada, meia doida, dizesque és minha amiga, e estás a rir, a escarnecer... - A sua voz tremia, quase chorava.

- Mas também que pergunta tão tola! Como se lhe há de pagar?... Tu não sabes?

Olharam-se um momento.

- Não, eu vou-me embora, Leopoldina! - exclamou Luísa.

- Não sejas criança!

Um trem parou na rua. A Justina apareceu. Não encontrara o Sr. Castro em casa, estava no escritório. Fora lá, disse que vinha imediatamente.

Mas Luísa, muito pálida, tinha o chapéu na mão.

- Não - disse Leopoldina quase escandalizada -, tu agora não me deixas aqui com o homem! Que lhe hei de eu dizer?

- É horrível! - murmurou Luísa com uma lágrima nas pálpebras, deixando cair os braços,solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, muito infeliz!

- É como quem toma óleo de rícino! - disse a outra com um gesto cínico. E acrescentou, vendo ohorror de Luísa: - Que diabo! Onde é que está a desonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede...

Naquele momento outra carruagem, a largo trote, parou.

- Entra tu primeiro! Fala-lhe tu primeiro! - suplicou Luísa, erguendo as mãos para ela.

A campainha retiniu. Luísa, muito trêmula, muito branca, olhava para todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, de ânsia, como procurando uma idéia, uma resolução ou um recanto para se esconder. Botas de homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina então disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma a uma.

- Lembra-te que daqui a uma hora podes estar salva, com as tuas cartas na algibeira, feliz, livre!

Luísa pôs-se de pé com uma decisão brusca. Foi pôr pó-de-arroz, alisou o cabelo - e entraram na sala.

Ao ver Luísa, o Castro teve um movimento surpreendido. Curvou-se, com os pés pequeninos muito juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os cabelos muito finos alourados já rareavam.

Sobre o seu ventrezinho redondo, que a perna curta fazia parecer quase pançudo, o medalhão do relógio pousava com opulência. Trazia na mão um chicote, cujo cabo de prata representava uma Vênus retorcendo os braços. A pele tinha um rubor próspero; o bigode farto terminava em pontas agudas, empastadas em cera mostacha, de um aspecto napoleônico. E os seus óculos de ouro tinham um ar autoritário, bancário, amigo da Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto.

Com quê! Era necessário mandá-lo chamar para que se pusesse a vista em cima - começou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a Luísa, "sua intima, sua amiga de colégio":

- Que tem feito, por que não tem aparecido?

O Castro repoltreou-se numa cadeira de braços, e batendo com o chicote nas botas, desculpouse com os preparativos da partida...

- Sempre é verdade? Deixa-nos?

O Castro curvou-se:

- Além de amanhã. No Orenoque.

- Então desta vez os jornais não mentiram. E com demora?

- Per omnia saecula saeculorum.

Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem tão estimado, que se podia divertir tanto! - Pois não é verdade? - disse voltando-se para Luísa, para a tirar do seu silêncio embaraçado.

- Com certeza - murmurou ela.

Estava sentada à beira da cadeira, como assustada, pronta a fugir. E os olhares do Castro, insistentes por trás do reflexo dos óculos, incomodavam-na.

Leopoldina reclinara-se no sofá, e ameaçando-o com o dedo erguido:

- Ah! Aí nessa ida para França anda história de saias!

Ele negou frouxamente, com um sorriso fátuo.

Mas Leopoldina não achava as francesas bonitas - o que era é que tinham muito chique, muita animação...

O Castro declarou-as adoráveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! Conhecia-as bem! Enfim, lá como mães de família não dizia. Mas para uma ceia, para um bocado de cancã não havia outras... - Afirmava-o com convicção, pois, como os burgueses "da sua roda", avaliava doze milhões de francesas por seis prostitutas do café-concerto - que tinha pago caro e enfastiado imenso!

Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe estróina!

Ele sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode:

- Calúnias, calúnias... - murmurava.

(continua...)

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