Por Franklin Távora (1879)
— Seja como for, tenho como mãe um dever imperioso a preencher neste grave assunto. Venho declarar-lhe positivamente, Sr. Albuquerque, que não há cálculo nem baixeza por parte da minha filha. Se Paulo tem brasões ilustres, sangue limpo corre pelas veias de Virgínia; se Virgínia é pobre, Paulo não é rico; se hoje eu e ela nos sentamos à mesa do Sr. Albuquerque, hoje mesmo podemos deixar vagos os nossos lugares para quem queira prestar os mesmos serviços que estou prestando.
— Conclua, D. Maurícia.
— Concluo, dizendo que preciso saber do Sr. Albuquerque a sua opinião a respeito das relações que entretém seu filho e minha filha.
Albuquerque tinha Maurícia em grande conta, e consagrava-lhe particular estima, que era compartida por todos os da casa. Ao princípio, tivera para ela a maior reserva. Terminadas as lições de Alice, Maurícia subia aos seus aposentos e a família recolhia-se aos que lhe pertencia,. Ficavam as comunicações interrompidas até a hora da refeição, em que Maurícia, descendo com Virgínia, vinha encontrar os donos da casa e sua discípula silenciosos à mesa, esperando por elas. Estas cerimônias duraram por algum tempo. Albuquerque e D. Carolina estudavam os costumes, os sentimentos, o caráter da mulher a quem tinham dado entrada, por necessidade, no seio da família. Tanto, porém, que reconheceram os largos merecimentos de Maurícia, cortaram o cordão sanitário que os separavam, e foram os primeiros que atraíram à intimidade a hóspede que ainda queria continuar as suas reservas. Então, Maurícia e Virgínia vieram a ser consideradas os primeiros encantos da casa e quase a fazer parte da família. Albuquerque apresentou-as com certo orgulho ás pessoas de representação que vinham passar dias no engenho. Neste, começou a reinar outra ordem de alegrias. Dantes, havia aí lautos jantares, mas sem grande animação; agora, já não era assim; com sua voz divina , Maurícia dava às reuniões o tom de verdadeiros saraus. Com ela, entrara ali a musa da harmonia, que deixava extasiados e saudosos os que iam passar os domingos com Albuquerque.
A brilhante sociedade que já concorria semanalmente ao engenho tornou-se mais freqüente, e aumentou e brilho e número. Um presidente de província foi passar um domingo em Caxangá somente para ouvi-la cantar.
Ouvindo as suas palavras Albuquerque não se deu por ofendido, antes acudiu a dar-lhes o maior apoio, procurando tranqüilizá-la.
— Não tenho sobre este objeto intenção hostil a Virgínia, que eu considero no caso de dar a Paulo a felicidade que ele deseja. Mas o casamento não se realizará senão depois e preenchida uma condição, uma condição única.
— Qual, Sr. Albuquerque? inquiriu a inquieta mãe, sentindo lavar-se no seu espírito, até aquele momento carregado de dúvidas e temores, no mais suave contentamento.
— Estão bem moços ainda; são duas crianças — prosseguiu Albuquerque. No governo da vida, Paulo é um homem perfeito; eu não sei se poderia em caso algum dirigir tão discretamente as minhas ações, e trazer tão bem velados os meus interesses. Mas Paulo, segundo a senhora reconhece, não tem fortuna; agora é que trata de formar pecúlio. Ele desmentiria seu conhecido juízo, se tomasse família sem os meios de a manter decente e dignamente. Talvez que já tenha estes meios, quando se preencher a condição de que lhe falei. Então, sim, D. Maurícia; o casamento, que nós e eles desejamos, se realizará com satisfação de todos.
— Mas não poderei saber qual é a condição a que o Sr. se refere?
— Permita que por ora não a revele. Em ocasião oportuna, a senhora será sabedora; mas dependendo a condição da sua vontade, ou do tempo, não há razão para supor que prometo o que é impossível. Está satisfeita, minha senhora?
— Estou tranqüila; satisfeita, ainda não, respondeu Maurícia, graciosamente. — Esperemos pelo tempo - disse Albuquerque.
E levantou-se.
Maurícia imitou-o, e subiu. Levava um demônio no espírito.
— Que condição será esta? perguntava inquieta a si mesma, e não achava reposta que lançasse um raio de luz sobre este mistério impenetrável.
Neste mesmo dia, Albuquerque, dando parte a sua mulher do que se passara entre ele e Maurícia, disse estas palavras:
— Daqui até que Alice esteja de todo educada, hei de ter conseguido conciliar D. Maurícia com o marido, e então darei a Paulo a felicidade que mais deseja. Talvez, não seja preciso promover-se esta conciliação, à vista das circunstâncias em que ficava o marido de D. Maurícia por ocasião das últimas indagações a que mandei proceder no Pará. Estava pobre e enfermo. Conjeturo que a esta hora o infeliz já não mais existe.
Não chegou a contar-se uma semana que Albuquerque teve a prova de que era mentirosa a sua conjetura.
CAPÍTULO VI
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.