Por Franklin Távora (1878)
Enfim, a vida do almocreve, a vida do pequeno negociante das estradas e feiras, ninguém nem antes nem depois daquelas duas criaturas tão irmãs e amigas uma da outra, compreendeu melhor do que elas, nem talvez tão bem como elas, em suas especiais aplicações.
Causava a todos inveja e admiração a harmonia, a felicidade desses dois entes rudes, que dispensavam lições da gente civilizada para viverem com honra e conveniência e que da beira de um caminho deserto, do pé de uma mata, sem saberem ler nem escrever, davam edificativos exemplos de moral domestica, amor ao trabalho, e fé no Criador.
Não se pretende fazer nestas palavras a apologia da ignorância, nem a da pobreza, que são os dois maiores males da terra; o que deste rápido esboço de dois caracteres puros e respeitáveis se aspira a inferir é que o bom natural traz em se mesmo, como por instinto, a ciência da vida, e que o trabalho, ainda o mais humilde, é o primeiro meio de suprir as faltas da fortuna e vencer os defeitos da condição.
V
Foi para esse ninho de modesta felicidade e de paz nunca perturbada, que Francisco levou consigo o trêfego Lourenço, infeliz fruto de união reprovada, precozmente apodrecido nas dissoluções da povoação, pobre de instrução, rica porém de misérias e maus exemplos.
Relatar aqui miudamente as maldades, os atentados cometidos pelo menino, entregue, até bem pouco tempo atrás, á torpe licença; rememorar os esforços usados para o reprimir e corrigir, por Francisco e Marcelina, que desde o dia de sua chegada não lhe faltaram com bons conselhos e as mais saudáveis lições de moral, fora longo e fastidioso encargo.
Imagine uma criatura humana com entranhas de tigre; na mão o pau ou a faca prestes para ofender ou ferir a quem estava perto, a pedra para atirar contra quem estava longe; sempre a saltar e a correr pelo caminho, a trepar nas arvores novas, primeiro que nas arvores idosas por serem mais fáceis de quebrar-se com o peso do corpo as primeiras do que as ultimas; imagine um ente essencialmente malévolo que cortava, por gosto de fazer mal, os gerumusinhos ainda na erva, arrancava as batatas verdes, despedaçava os maturis, queimava as cercas, quebrava as pernas ás aves domesticas que se achavam a seu alcance quando ele entrava em seu furor; enfim imagine o espirito mais diabólico, o coração mais duro, a constituição mais forte aos doze anos de idade, que tereis, não o retrato tirado pelo natural, mas apenas a miniatura de Lourenço quando chegou ao Cajueiro.
Ao cabo de um ano a luta continuada de dois sexos, dois gênios, duas idades diferentes, representadas por Marcelina e Lourenço, tinha trazido notável alteração ao natural e aos costumes de ambos. Marcelina estava cansada de lutar; as faces se lhe alquebraram; com pouco se irritava. Por felicidade, porém, Lourenço dava mostras de achar-se menos duro, manos indiferente aos castos sentimentos, menos insensível aos afetos plácidos do lar, menos forte para fazer mal, e já propenso ao trabalho e á pratica do bem.
Luta insana e titânica fora essa, mas tão gloriosa para a parte vencedora, como proveitosa para a vencida. A mãe mais amorosa, paciente e discreta teria que invejar àquela mulher ignorante e rústica o esforço que, em sua benevolência, empregava em domesticar o animo da fera metido no coração da criatura humana, que ela adotará por filho.
Aquela mulher era digna do estudo das mães de família, e de ser por elas imitada. Era o modelo vivo da mãe pobre, boa e virtuosa.
- É meu filho, dizia Marcelina consigo mesma. Porque não hei de ter para ele amor e brandura? Que tem que me dê muito que fazer encaminha-lo para o bem? Muito custa a gente acertar com o bom caminho; mas querendo-se ir por ele, ou tendo-se quem sirva de guia para ai, chega-se ao fim sempre. Hei de amolecer a natureza de pedra deste menino; hei de o fazer bom, ainda que eu fique má e dura de coração contra minha vontade.
Quem souber que o maior desejo de Marcelina era Ter um filho, facilmente compreenderá os impossíveis que ela vencia para fazer Lourenço digno dos seus afetos grandiosos.
As palavras que, no momento de chegar com Lourenço da povoação, Francisco dissera á sua mulher, apresentando-lho, deram logo a esta a conhecer a grande obra em que tinha de empenhar suas gigantescas forças. - Não pedias todo santo dia um filho a Deus? Pois aqui tens um que ele te enviou e está já em condições de te fazer companhia e ajudar, quando eu não estiver na terra. Achei-o rasgado, sujo, desamparado, obrando ações feias, de todos desprezado e odiado. Lembrou-me o teu desejo, compadeci-me da criança desviada do bom caminho, tomei-a para nós, e aqui t’a entrego. Se aprender a trabalhar, a ajuntar, e a fazer bem, de muito nos poderá servir, porque é forte como uma onça.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.