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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

O padre fez acender uma veia, e o estudante com a mão trêmula nela queimou, como se fossem sacrílegos, aqueles inocentes produtos da sua musa infantil.

— Muito bem! — disse o padre vendo caírem no chão uma após outra as folhas denegridas dos papéis queimados. — Muito bem! agora é preciso também queimar nesse coraçãozinho inexperiente o lixo das paixões mundanas e pecaminosas no fogo do amor divino, redobrando de devoção, rezando com muito fervor, impondo-se jejuns e penitências, e suplicando do fundo da alma ao divino Espírito Santo, que lhe ilumine o entendimento e lhe vigore o coração, dando-lhe forças para poder combater vitoriosamente contra a tentação do pecado. Para esse fim há de Vm. jejuar uma semana inteira e preparar-se para no fim dela fazer confissão geral e receber a comunhão. Tenha paciência, e só por este meio que poderá combater a tentação, que assim o anda desviando da senda de seus deveres, e o pretende arredar de sua santa e verdadeira vocação. Vá; vá para o salão estudar. Por esta vez está relevada a sua falta e se arrepender deveras, e emendar-se, continuará a merecer a nossa estima e nossos desvelos. Do contrário o reenviaremos a seus pais; mas espero que o menino não quererá dar-lhes tão grande desgosto.

CAPÍTULO VII

Eugênio entrou para o salão mergulhado num pego de dor, de vergonha, de terror, e sofrendo o embate de mil diversas e violentas impressões. Seus companheiros de salão olhavam para ele cheios de pasmo.

Em que grave falta teria incorrido aquele bom menino tão dócil, tão sossegado e estudioso?

— Se aquele, que é um santinho, e nunca falta às suas obrigações, está sujeito a estas, que será de mim, que nem por isso dou muito boas contas de mim, e não sou lá das melhores fazendas! — Assim cada um deles transido de medo pensava em sua consciência.

Eugênio vendo a atenção de que era objeto da parte deles, quereria afundarse cem braças pela terra abaixo.

Aquele estranho acontecimento vinha despertar em seu espírito uma multidão de idéias e reflexões novas, que lhe tumultuavam no cérebro, e o punham na maior tortura e confusão. Não compreendia que mal pudesse haver em querer bem a uma menina e em fazer-lhe versos. Bem sabia que tinha de ser padre, e esse era o seu mais ardente desejo, sabia igualmente que o padre não pode casar-se, e muito menos amar uma mulher qualquer; mas nunca lhe passou pelo espírito a idéia de casamento com Margarida, nem com quem quer que fosse, nem tampouco que aquela afeição que consagrava à menina fosse o que se chama amor. Ficou portanto confuso e aterrado, quando aquele sentimento, que lhe parecia tão inocente e sem conseqüência, lhe foi exprobrado como um crime hediondo, um sacrilégio, uma ofensa enorme feita à divindade.

Repugnava-lhe semelhante idéia, mas entretanto sentia que era forçoso curvar-se a ela e submeter-se aos ditames do seu diretor. Mas esquecer-se de Margarida, renunciar para sempre àquela afeição tão pura e suave, que até então lhe havia embalsamado, a existência com os seus eflúvios celestes, e que constituía por assim dizer a seiva de seu coração, o perfume de sua alma, era um empenho diante do qual o seu espírito recuava espavorido, e a sua inteligência, posto que inexperiente, bem entrevia que isso não lhe seria possível.

Todavia Eugênio, como submisso e dócil que era por natureza, não podia deixar de compreender que o padre diretor devia ter toda a razão, e pressentia que a afeição que votava a Margarida era um estorvo temível, um escolho, em que iria naufragar irremediavelmente a sua vocação religiosa. E como desejava sincera e ardentemente abraçar o estado sacerdotal, começou a ter um horror, não à pessoa de Margarida — que mal lhe havia feito ou poderia fazer a pobre menina? — mas à idéia de amá-la.

Não podia desprezar e muito menos odiar a sua boa e gentil companheira de infância, mas era forçoso... esquecê-la de todo! não; não o queria, e nem isso era possível, mas era preciso não trazê-la tão de contínuo presente ao pensamento. Nesse intuito Eugênio tentou embalde esforços sobre-humanos.

À tarde, no recreio, em vez de ir assentar-se como dantes no paredão da esplanada a contemplar as colinas vizinhas e as nuvens douradas do ocidente afogueado pelos últimos clarões do dia, envolvia-se na turba folgazã dos companheiros, e procurava abafar no turbilhão e algazarra de seus trêfegos divertimentos as cismas saudosas que nessas horas, como vapores de rosa nas asas de uma brisa perfumada, costumavam pairar-lhe pelo espírito.

Quando à hora de missa entrava na igreja, desviava os olhos do grupo das mulheres, e quando acordava de madrugada aos sons dos hinos sagrados, ao ouvir aquela voz suave e argentina que fazia lembrar Margarida, cobria bem a cabeça, e tapava os ouvidos com ambas as mãos.

(continua...)

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