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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Ah! Pobreza! Pobreza! Maldita pobreza- exclamou Elias em transportes de frenesi, entrando para o seu aposento. - Pobreza! Tu és o pior dos males que afligem a humanidade, pior que a fome, pior que a lepra, pior que a morte mesmo. De toda parte és repelida, como se fosse um mal contagioso. Além de faltarem ao pobre todas as comodidades materiais da existência, são-lhe vedados todos os prazeres do coração. O pobre não pode, não deve amar. . . Ah! Se eu fosse rico! . . . Por que não quis a sorte, que eu possuísse um pouco de dinheiro? Mas quem me impede de o ter? Os outros, que o ganham, são porventura melhores do que eu? . . . Sou moço, e, graça ao céu, tenho saúde, robustez e a inteligência necessária para saber ganhar dinheiro. . . A Bagagem está ali perto. . . é um garimpo riquíssimo. . . pouco custa cavar a terra, e lavar o cascalho. Major! Major! . . . Tu me expeles de tua casa por ser pobre. . . mas, ah! Major! queira Deus que bem cedo não te arrependas do pouco caso que hoje fazes de mim, e não venhas humilhado implorar o perdão a meus pés. Major! Por ti só, tu nada vales; e esse teu vil procedimento eu o lançaria ao desprezo, sem que me custasse um só momento de sono. Mas tua filha vale um tesouro e é por ela e para ela que eu juro e protesto. . . serei rico, ou do contrário nem tu, nem ela, nem mais ninguém neste mundo me verá a face.

As relações entre Lúcia e Elias estavam, pois, completamente interceptadas. Há muito tempo não se viam senão à hora do jantar com a família. Este era para eles o pior dos martírios. Iam-se separar sem poderem dizer-se um adeus. . . Um medianeiro seria para eles naquela ocasião um presente do céu, para se comunicarem suas angústias, receios, e esperanças, se esperanças podiam ter. Só Lúcia poderia achar um meio de comunicação entre eles. Lúcia lembrou-se de Joana; era a única pessoa a quem podia incumbir de tão melindrosa tarefa. Ela sabia muito bem que a velha e matreira crioula já estava ao fato de seus amores com Elias, e portanto nada arriscava encarregando- a de um recado ou de um bilhete.

- Joana, tu hás de me fazer uma coisa! . . .

- Por que não, sinhazinha? . . . qual é essa coisa?

- Entregar-me este bilhete a. . meu mestre.

- Para que isso, minha sinhá? . . . esqueça-se desse moço! amanhã ele vai-se embora. . .

- É por isso mesmo; quero dizer-lhe adeus. Entregas?

- Eu sei! . . . Nhonhô sabendo não há de gostar; ele já anda ressabiado, e me recomendou que não deixasse sinhazinha andar sozinha.

- E que necessidade há de que ele saiba? . . . isso não faz mal; o moço tem de retirar-se e talvez nunca mais nos encontremos- disse a moça suspirando.

- Ah! sinhá! eu. . . não. . . sei. . .

Vai; leva isso e cala-te. Se ele te der alguma coisa para trazer-me, entrega-me fielmente, ouviste?

- Sinhá mandou. . . que remédio tenho eu. . .

Nessa noite Elias recebia o seguinte bilhete:

“Meu pai já tem conhecimento de nosso amor, e, como bem está se vendo, não o aprova. Vejo que nossa separação é inevitável. Não posso explicar quanto tenho sofrido. Não sei o que será de mim, e nem vejo remédio para nossa desgraça. Tudo poderão fazer de mim menos arrancar-me do coração este amor que lhe consagro. Adeus, não se esqueça desta infeliz, que, aconteça o que acontecer, há de amá-lo sempre, sempre. ””

Na manhã seguinte Elias mandou-lhe a seguinte resposta:

“Teu pai tem dado a entender claramente que não me quer mais em sua casa. Devo deixar-te e amanhã mesmo estarei longe de ti; este golpe feriu-me cruelmente, mas não me desalenta. Sou pobre, e essa é a razão por que teu pai me despreza. Mas devia lembrar-se que seu moço, e, louvado Deus! Tenho robustez e inteligência, sei trabalhar, e amanhã posso ser rico. Adeus, Lúcia; não percas a esperança, e ama-me sempre, que para tudo há remédio. Eu vou trabalhar para me tornar digno de ti aos olhos de teu pai. O teu amor me alenta e me enche de coragem e de confiança em minha estrela. Ah! possas tu nunca faltar-me com ele! Eu parto com o coração ralado de angústia e de saudade. Terás notícias minhas. . . dentro em dois anos estarei de volta ou. . . Adeus. ””

No dia seguinte Elias seguindo caminho de Bagagem via sumir-se além no horizonte longínquo a fazenda do Major, e sentia como que um véu de luto abafar-lhe o coração, ao passo que aquela aprazível morada, que antes formara as delícias de Lúcia, ia Dora em diante tornar-se para ela um deserto horrendo, um exílio insuportável.

IV - O GARIMPO

Tinham-se passado de seis meses, depois que Elias se retirara da fazenda do Major.

(continua...)

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