Por José de Alencar (1853)
Era o receio de que a menina voltasse á esquivança de antes, e viesse a tratal-o com a mesma reserva e acanhamento que tanto o maguava então.
Não se apagára de todo n'alma do corsario a suspeita de ser o affecto de Antonio Caminha bem acolhido, sinão já retribuido, por Maria da Gloria.
É, certo que a menina tratava agora o primo com afastamento e enleio, que mais se manifestava quando este a enchia de attenções e finezas.
Ora Ayres que se julgava aborrecido por merecer um tratamento semelhante, agora que todas as effusões da gentil menina eram para elle, desconfiava d'esse acanhamento, que podia encobrir um timido affecto.
Assim é sempre o coração do homem, a revolver-se no constante sere não ser em que se escôa a vida humana.
De sahir ao mar, era cousa em que Ayres já não tocava aos marujos da escuna, que mais ou menos andavam ao corrente do que havia. Si alguem lhes falava de fazerem-se ao largo, respondiam a rir, que o commandante encalhára n'agua doce.
Muito tempo já era passado depois de sua ultima viagem, quando Ayres de Lucena, querendo acabar com a incerteza em que vivia, animou-se a dizer á filha adoptiva de Duarte de Moraes, uma noite ao despedir-se d'ella:
— Maria da Gloria, tenho um segredo para contar-lhe.
O labio que proferiu estas palavras era tremulo, e o olhar do cavalheiro retirou-se confuso do semblante da menina.
— Que segredo é, senhor Ayres ? respondeu Maria da Gloria tambem perturbada.
— Amanhã lh'o direi.
— Olhe lá!
— Prometto.
No dia seguinte por tarde encaminhou-se o corsario para a casa de Duarte de Moraes; ia resolvido a declarar-se com Maria da Gloria e confessar-lhe o muito que a queria para sua esposa e companheira.
Levava o pensamento agitado e o coração inquieto como quem vai decidir de sua sorte. Ás vezes apressava o passo, na sofreguidão , de chegar; outras o retardava com receio do momento.
Á rua da Misericordia encontrou-se com um ajuntamento, que o fez parar. No meio da gente via-se um homem idoso, com os cabellos já grisalhos da cabeça e da barba tão longos, que lhe desciam aos peitos e caíam sobre as espaduas.
Caminhava elle, ou antes se arrastava de joelhos, e levava em bandeja de metal um objecto, que tinha figura de mão cortada acima do punho.
Pensou Ayres que era esta a scena, muito com mum n'aquelles tempos, do cumprimento solem ne de uma promessa; e seguiu a procissão com olhar indifferente.
Ao aproximar-se porém o penitente, conheceu com horror que não era um ex-voto de cera, ou milagre, como o chamava o vulgo, o objecto posto em cima da salva; mas a propria mão cortada do braço direito do devoto, que ás vezes levantava para o céo o coto mal cicatrisado ainda.
Inquiriu dos que o cercavam a explicação do estranho caso; e não faltou quem lh'a desse com Tivera o penitente, que era mercador, um panaricio na mão direita; e sobreveiu-lhe grande inflammação de que resultou a gangrena. No risco de perder a mão, e talvez a vida, valeu-se o homem de S. Miguel dos Santos, advogado contra os cancros e tumores, e prometteu-lhe dar para sua festa o peso em prata do membro enfermo.
Exalçou o Santo a promessa, pois sem mais auxilio de mesinhas, veiu o homem a ficar inteiramente são, e no perfeito uso da mão, quando no juizo do physico pelo menos devia ficar aleijado.
Restituido á saude, o mercador que era muito agarrado ao dinheiro, espantou-se com o peso que lhe haviam tomado do braço enfermo; e achando salgada a quantia, revolveu de esperar pela decisão de certo negocio, de cujos lucros tencionava tirar o preciso para cumprir a promessa.
Um anno decorreu porém sem que o tal negocio se concluisse, e ao cabo d'esse tempo começou
a mão do homem a mirrar, a mirrar, até que ficou de todo secca e rija, como si fôra de pedra.
Conhecendo então o mercador que estava sendo castigado por, não haver cumprido a promessa, levou sem mais detença a prata que devia ao Santo; mas este já não a quiz receber, pois ao amanhecer do outro dia achou atirada á porta da igreja a offerenda que ficára sobre o altar.
O mesmo foi da segunda e terceira vtez, ate que o mercador vendo que era sem remissão a sua culpa e devia expial-a, decepou a mão já secca e vinha trazel-a, não só como symbolo do milagre, mas como lembrança do castigo.
Eis o que referiram a Ayres de Lucena.
XIII
AO MAR
Já tinha desfilado a procissão e ficára a rua deserta, que ainda lá estava no mesmo lugar Ayres de Lucena quedo como uma estatua.
Seus espiritos se tinham afundado em um pensamento que os
submergia como em um abysmo. Lembrára-se que tambem fizera um voto e ainda não
o havia cumprido, dentro do anno que estava quasi devolvido.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.