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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

À vista disso não restava senão entabular a negociação que o Sr. Veiga queria terminar logo e de pronto com a decisão que punha em suas transações. D. Felícia, porém, foi de opinião que se deixasse as coisas seguirem o seu curso natural, facilitando-se apenas o seu casamento.

Este último alvitre prevaleceu. O Sr. Veiga pagou a visita ao Dr. Henrique Teixeira, e convidou-o para o jantar de família, combinação lembrada pela mulher para introduzir na intimidade da casa o suposto pretendente que não era realmente senão um pretendido.

O doutor foi assíduo às partidas. Amália continuou a distingui-lo com uma atenção especial, deleitando-se na sua conversa. Falavam acerca de Hermano; a moça interrogava a miúdo e ouvia com avidez.

Não precisou o médico de grande perspicácia para conhecer que esse interesse tão vivo da moça denunciava uma afeição nascente, mas profunda. Hermano ainda ignorava naturalmente; mas quando viesse a conhecê-la poderia ele partilhá-la?

Henrique era um tanto fisiologista. Ele acreditava que a natureza amante e apaixonada de Hermano carecia de uma forte expressão de afeto; e por isso revivia Julieta, para adorá-la. Desde, porém, que outra mulher o impressionasse, ele transportaria aquela adoração para o novo ídolo e continuaria neste o mesmo amor romanesco.

E que mulher estava mais nas condições de causar essa impressão viva do que Amália, cuja beleza luminosa e esplêndida raiava dentro d´ alma como uma aurora de amor?

O médico afagava esta esperança. Ele compreendia a necessidade de subtrair o amigo à constante preocupação que lhe consumia parte da vida. Esse estado em todo caso não era natural; cumpria que cessasse. Para isso o primeiro passo era aproximar Hermano da mulher, que o podia salvar.

Entretanto, parecendo a D. Felícia muito lenta a marcha dos acontecimentos, resolveu ela provocar uma explicação. Mandou chamar o médico para consultá-lo sobre a saúde da filha, cuja mudança já a inquietava.

Expôs o desejo que ela e o marido tinham de ver Amália casada. Descreveu o tipo do noivo que preferiam; e apesar de sua modéstia Teixeira foi obrigado a rever-se naquele retrato físico e moral, como em um espelho do melhor aço. Finalmente rematou dando ela uma consulta matrimonial ao médico, em vez da consulta profissional que devia pedir a este.

— Amália gosta de alguém, doutor. Tenho a certeza.

— É natural, D. Felícia, e até muito provável.

— E o senhor sabe quem é?

— Não devia entrar em assunto tão delicado; mas a sua confiança, minha senhora, a estima que consagro a toda a sua família, e o desejo de concorrer para a felicidade de duas pessoas que tanto merecem impõe-me esse dever.

Henrique revelou o segredo de Amália. D. Felícia caiu das nuvens. Não podia crer. Apenas retirou-se o médico, ela dirigiu-se ao aposento da filha.

Amália, de pé junto à janela, com a fronte apoiada na aba da porta, tinha os olhos presos na casa vizinha; e tão absorta nessa observação, que a mãe aproximou-se e ficou muito tempo a fitá-la, sem que ela percebesse.

D. Felícia não duvidava mais. Teixeira tinha razão. Amália amava Hermano e era um amor veemente que se lia em seu formoso semblante como em uma página aberta.

— Queres casar com ele? perguntou a senhora afetuosamente.

Amália estremecera a essa voz. Com as faces inflamadas pelo pejo e os olhos em pranto, atirou-se nos braços da mãe e escondeu o rosto no seio dela.

D. Felícia acariciou-a com ternura e repetiu a pergunta que a moça escutara da primeira vez.

— Casar?... Com quem?... interrogou ela atônita.

— Com ele? Com o Hermano.

Uma palavra prorrompeu do seio da moca, como a explosão de sua alma.

— Nunca!

E desprendeu-se dos braços da mãe, com uma violenta expressão de pavor.

Amália passava pelo mesmo espanto que teria se sua mãe lhe acabasse de propor para marido um homem casado.

Capítulo 8

A primeira abertura de D. Felícia com Henrique Teixeira estabeleceu entre ambos uma confidência constante sobre o delicado assunto do casamento de Amália.

Ambos empenhavam-se na realização desse projeto do qual esperava cada um a ventura da pessoa que lhe era tão cara. Se a graça e os dotes da moça tinham cativado a simpatia do doutor, que já a estimava como outra Julieta, também D. Felícia, seduzida pelo entusiasmo do amigo, queria a Hermano como a um filho e apreciava o seu caráter leal e generoso.

Logo no dia seguinte, aflita com o modo por que Amália recebera a idéia do casamento, e o terror de que se possuíra, a mãe comunicara ao médico esse fato tanto mais inexplicável, quanto a filha traía nos seus menores gestos um amor irresistível por Hermano.

Henrique Teixeira compreendeu logo o sentimento de Amália. Essa moça, outrora tão positiva, pairava agora no mundo da fantasia. Desde que Julieta vivia para o marido, e o acompanhava, ainda e sempre, esse marido não era para a moça um viúvo, e o seu casamento com outra mulher seria um crime, um adultério.

(continua...)

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