Por José de Alencar (1864)
—Mas olha que é segredo. Se disseres uma palavra, está tudo perdido! Mila é capaz de ficar mal comigo; e eu antes quero estar mal com meu pai, do que com ela.
—Pelo que vejo tua irmã tem parte nisto? —O negócio é dela. Eu te conto. A senhora minha irmã tem a mania de dar esmolas.
—Ah! Não sabia! —Pois fica sabendo; mas cuidado!... Não dês o menor sinal de que eu te disse semelhante cousa! —Que interesse tenho eu em te comprometer? Podes estar descansado. Mas então, D. Emília é tão caritativa assim? Em uma moça, admira! —Oh! nem tu fazes idéia! Ela tem uma porção de velhas, suas protegidas, que não se saem da porta. E não contentes já de pedirem para si, pedem também para os outros. Desde criança que Mila se acostumou, quando meu pai volta da cidade, a tirar-lhe todo o dinheiro que ele traz solto na algibeira; e meu pai deixa de propósito uma porção de moedinhas de prata, além do que lhe dá sempre que ela pede. Pois quase todo esse dinheiro é filado pelas tais velhas.
Geraldo suspirou:
—Que dinheiro tão mal gasto. Podia-me servir ao menos para charutos! —Mas que relação tem isso com o teu pedido? —É verdade! Uma das tais velhas descobriu, ou inventou, o que é mais certo, a história de uma menina que perdeu pai e mãe, e está na miséria, sem parentes que olhem para ela. E de que havia de lembrar-se? De metê-la no recolhimento das órfãs! —Foi uma boa lembrança. —Achas que sim? Melhor, porque és tu quem hás de arranjar isto.
—Como? Tua irmã?...
—Ela aprovou muito a idéia, e incumbiu-me de obter a admissão da menina, com um dote, que deve receber quando se casar. Vê que extravagância! Eu tenho lá tempo para cuidar dessas cousas? Mas não há remédio senão fazer-lhe a vontade. Há muitos dias que estou para te falar nisso, e felizmente agora lembrou-me... Tu andas lá, pela Misericórdia, conheces aquela gente... Tive uma inspiração.
—Pois bem, Geraldo. Fica ao meu cuidado.
—Prometes então arranjar o negócio? —Dou-te a minha palavra; e quase te posso assegurar que é cousa feita.
—Muito bem; mas que seja logo! Mila não me deixa, e eu não sei já que desculpas invente! —Amanhã mesmo tratarei disso. Como se chama a menina? —Homem! Se queres que te diga, não sei. Mila deu-me um papel, que eu nem abri. Deve estar no bolso do meu redingote.
—Pois isso é indispensável, assim como a idade, filiação...
—Eu vou para casa, e te mando o papel hoje mesmo.
Esperei até a noite com febril impaciência. Geraldo não cumpriu a promessa; mas no dia seguinte por volta de uma hora ele apareceu.
—Aqui tens! disse-me tirando da carteira a nota. E adeus.
—Onde vais já,? Não queres jantar? —Hoje não. Vou jantar ao Jardim; temos lá esta noite um pagodezinho sofrível.
Ao descer a escada voltou-se:
—Sim! Eu prometi a Mila que o negócio não passaria desta semana. Vê se me deixas ficar mal! —Vai descansado, respondi-lhe sorrindo.
Reli a nota que Geraldo me havia dado. Era uma meia folha de pequeno velino, onde a mão de Emília traçara algumas linhas com elegante e fina escritura. Conservei este papel por muito tempo; creio que o queimei sem querer de envolta com outros. Nem já me lembra o nome da menina, que teve, sem o saber, uma influência rápida, mas decisiva na minha vida.
Uma carta da mulher que eu amasse talvez não produzisse em mim a emoção que senti lendo aquelas palavras. Sorria de contentamento, e uma vez machuquei o papel aos lábios. Cuidei então que afagava a minha vingança; mas quanto me enganei! Sorvia o filtro dos ódios fugaces de um amor espezinhado! — Ah! Ela é boa e compassiva! murmurava eu. Estou vingado!...
Até então, Paulo, cuidava que um egoísmo frio forrasse a alma dessa menina; e tinha medo, porque todo o desprezo, que eu pudesse amassar em meu coração para afrontá-la, iria bater e pulverizar-se nessa crosta impenetrável.
Recolhi um instante em mim para refletir. Concertado meu plano, a execução foi imediata. Tudo me favorecia: era um sábado, dia em que o Sr. Duarte se recolhia mais cedo; por outro lado, o passeio de Geraldo me assegurava da sua ausência.
Cheguei à casa do negociante com as primeiras sombras da noite.
VII
A CASA do Sr. Duarte acabava de sofrer uma transformação completa.
Quando eu a conheci, e mesmo ainda depois de minha volta, era um velho prédio, feio e irregular, construído numa das abas da montanha que cinge os amenos vales de Catumbi e Rio Comprido. A chácara coberta de arvoredo estendia-se pelas encostas até as pitorescas eminências de Santa Teresa. Gozava-se aí de uma vista magnífica, de bons ares e sombras deliciosas. O arrabalde era naquele tempo mais campo do que é hoje.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.