Por José de Alencar (1873)
Em 1862 escrevi Lucíola, que editei pôr minha conta e com o maior sigilo. Talvez não me animasse a esse cometimento, se a venda da segunda e terceira edição ao Sr. Garnier, não me alentasse a confiança, provendo-me de recursos para os gastos da impressão. O aparecimento de meu novo livro fez-se com a etiqueta, ainda hoje em voga, dos anúncios e remessa de exemplares à redação dos jornais. Entretanto toda a imprensa diária resumiu-se nesta notícia de um laconismo esmagador, publicada pelo Correio Mercantil: “Saiu à luz um livro intitulado Lucíola”. Uma folha de caricaturas trouxe algumas linhas pondo ao romance tachas de francesia.
Há de ter ouvido algures, que eu sou um mimoso do público, cortejado pela imprensa, cercado de uma voga de favor, vivendo da falsa e ridícula idolatria a um romance oficial. Aí tem as provas cabais; e pôr elas avalie dessa nova conspiração do despeito que veio substituir a antiga conspiração do silêncio e da indiferença.
Apesar do desdém da crítica de barrete, Lucíola conquistou seu público, e não somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um ano esgotou-se a primeira edição de mil exemplares, e o Sr. Garnier comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguais condições ouro perfil de mulher, que eu então gizava.
Pôr esse tempo fundou a sua Biblioteca Brasileira, o meu amigo Sr. Quintino Bocaiúva, que teve sempre um fraco pelas minhas sensaborias literárias. Reservou-me um de seus volumes, e pediu-me com que enche-lo. Além de esboços e fragmentos, não guardava na pasta senão uns dez capítulos de romance começado.
Aceitou-os, e em boa hora os deu a lume; pois esse primeiro tomo desgarrado excitou alguma curiosidade que induziu o Sr. Garnier a editar a conclusão. Sem aquela insistência de Quintino Bocaiúva, As Minas de Prata, obra de maior traço, nunca sairia da crisálida e os capítulos já escritos estariam fazendo companhia a Os Contrabandistas.
De volta de São Paulo, onde fiz uma excursão de saúde, e já em férias de política, com a dissolução de 13 de maio de 1863, escrevi Diva que saiu a lume no ano seguinte, editada pelo Sr. Garnier.
Foi dos meus romances – e já andava no quinto, não contando o volume d’As Minas de Prata – o primeiro que recebeu hospedagem da imprensa diária, e foi acolhido com os cumprimentos banais da cortesia jornalística. Teve mais: o Sr. H Muzzio consagrou-lhe no Diário do Rio um elegante folhetim, mas de amigo que não de crítico.
Pouco depois (20 de junho de 1864) deixei a existência descuidosa e solteira para entrar na vida da família onde o homem se completa. Como a literatura nunca fora para mim uma Boêmia, e somente um modesto Tibur para o espírito arredio, este sempre grande acontecimento da história individual não marca época na minha crônica literária.
A composição dos cinco últimos volumes d’As Minas de Prata ocupou-me três meses entre 1864 e 1865, porém a demorada impressão estorvou-me um ano, que tanto durou. Ninguém sabe da má influência que tem exercido na minha carreira de escritor, o atraso de nossa arte tipográfica, que um constante caiporismo torna em péssima para mim.
Se eu tivesse a fortuna de achar oficinas bem montadas com hábeis revisores, meus livros sairiam mais corretos; a atenção e o tempo pôr mim despendidos em rever, e mal, provas truncadas, seriam melhor aproveitados em compor outra obra.
Para publicar Iracema em 1869, fui obrigado a edita-lo pôr minha conta; e não andei mal inspirado, pois antes de dois anos a edição extinguiu-se.
De todos os meus trabalhos deste gênero nenhum havia merecido as honras que a simpatia e a confraternidade literária se esmeram em prestar-lhes. Além de agasalhado pôr todos os jornais, inspirou a Machado de Assis uma de suas mais elegantes revistas bibliográficas.
Até com surpresa minha atravessou o oceano, e granjeou a atenção de um crítico ilustrado e primoroso escritor português, o Sr. Pinheiros Chagas, que dedicou-lhe um de seus ensaios críticos.
Em 1868 a alta política arrebatou-me às letras para só restituir-me em 1870. Tão vivas eram as saudades dos meus borrões, que apenas despedi a pasta auri-verde dos negócios de estado, fui tirar da gaveta onde a havia escondido, a outra pasta de velho papelão, todo rabiscado, que era então a arca de meu tesouro.
Aí começa outra idade de autor, a qual eu chamei de minha velhice literária, adotando o pseudônimo de Sênio, e outros querem seja a da decrepitude. Não me afligi com isto, eu que, digo-lhe com todas as veras, desejaria fazer-me escritor póstumo, trocando de boa vontade os favores do presente pelas severidades do futuro.
Desta segunda idade, que V. tem acompanhado, nada lhe poderia referir de novo, senão um ou outro pormenor de psicologia literária, que omito pôr não alongar-me ainda mais. Afora isso, o resto é monótono, e não passaria de datas, entremeadas da inesgotável serrazina dos autores contra os tipógrafos que lhes estripam o pensamento.
Ao cabo de vinte e dois anos de gleba na imprensa, achei afinal um editor, o Senhor B.
Garnier, que espontaneamente ofereceu-me um contrato vantajoso em meados de 1870.
(continua...)
ALENCAR, José de. Como e por que sou romancista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1837 . Acesso em: 14 jan. 2026.