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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Além de que seus haveres não chegavam para tais prodigalidades.

O moço pertencia à classe dos fregueses da obra de carregação, e preferia a loja do Matos pela modicidade do preço, e boa qualidade do cabedal, como do trabalho.

Que misteriosa associação de idéias trouxera à lembrança de Leopoldo, naquele momento, a tenda do sapateiro? E por que motivo se dirigiu ele para ali onde estivera na véspera, e não para qualquer outro lugar, em que poderia melhor espancar seu dissabor?

O motivo, nem ele mesmo o sabia naquele instante.

— Bom dia! As botinas estão prontas? disse entrando.

O Matos, que atendia a alguns fregueses perto da vidraça, olhou-o surpreso:

— Não disse ontem a V. Sª. que só para o fim da semana?

— É verdade!

— Tinha entre mãos esta encomenda. Mas já acabei; agora posso ajudar os companheiros.

O Matos indicara alguns pares de calçado que estavam no mostrador sobre folhas de papel e prontos a serem embrulhados.

Leopoldo, chegando-se para o balcão, principiou a examinar a obra acabada, com a distraída curiosidade de quem deseja desperdiçar alguns momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar um prazer. Era trabalho fino do mestre, e contudo não excitaria grande atenção da parte do moço, se não fosse um par de botinas de senhora já usadas e meio encobertas pelo papel com outra obra. A medida era enorme no comprimento e na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe reparo.

Na véspera quando viera à loja, casualmente observara a obra que o Matos estava acabando. Vendo há pouco na Rua do Ouvidor o pé monstruoso da moça, tivera uma confusa e tênue reminiscência das botinas da loja. Fora esse o fio misterioso que o conduzira insensivelmente àquela casa. Agora compreendia a encadeação: a botina monstro pertencia sem dúvida ao pé aleijão.

Leopoldo depois que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça, ainda alimentava uma dúvida, que pretendia cevar com todas as sutilezas e argúcias de seu espírito. Talvez ele visse mal; talvez a sombra, o estribo do carro, qualquer outro objeto o tivesse iludido. O aleijão só existia em sua imaginação; fora um desvario dos sentidos. Com efeito, como supor que uma senhora pudesse andar graciosamente com semelhante pata de elefante?

Mas as botinas aí estavam sobre o balcão que não lhe deixavam a menor dúvida. O pé disforme existia; era aquele o seu molde, o seu corpo de delito, e por ele se podia ver quanto devia ser horrível a realidade. Agora Leopoldo podia apreciar os traços parciais que lhe tinham escapado pela manhã; esse pé era cheio de bossas como um tubérculo; não arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano: era uma posta de carne, um cepo!

Junto dessa deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva, havia outra obra que chamara a atenção do mancebo por sua singularidade. À primeira vista era um volume semelhante ao das botinas monstruosas embora de linhas regulares: parecia uma ligeira almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora, muito elegante apesar de comprida. O tubo cinzento ficava oculto sob frocos de cetim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho de rosas, cujas hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda, toda a volta do pé até o calcanhar.

Uma das botinas ainda tinha dentro a fôrma; enquanto a outra já estava sem ela. Naturalmente o Matos procedia àquela operação quando foi distraído pelos fregueses e compradores; deixara-a pois em meio, deitando em cima da obra, para encobri-la, uma folha de papel.

A fôrma não podia passar despercebida ao observador. Vendo pouco antes a botina disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exato do pé monstruoso, que ele avistara. Enganara-se: a botina era já o disfarce, a máscara do aleijão. Sua cópia ali estava em horrível nudez, no grosseiro toco de pau, cheio de buracos e protuberâncias.

Mas se essa observação acabou de esmagar o coração do mancebo, levou insensivelmente seu espírito a apreciar pela primeira vez a superioridade do Matos em sua arte. Ali estava a imagem do aleijão, o calçado que outros sapateiros lhe fariam para cobrir a monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto, o mestre fluminense conseguira, por um esforço feliz, desvanecer a deformidade sob a aparência de uma botina elegante.

A almofada sobre que parecia descansar a botina, era um solado alto porém oco, onde as carnes moles do pé monstruoso, comprimidas pela botina superior, podiam abrigar-se.

Os frocos de cetim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e desvaneciam as protuberâncias ósseas, com muita delicadeza, sem avolumar o tamanho do coturno. Na sola negra se debuxava, em proporção à botina superior, a alva palmilha com seus contornos harmoniosos; de modo que olhando-se andar a pessoa, não se perceberia facilmente o tamanho do calçado.

(continua...)

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