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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Adriano – Senhora?!!! Senhora Beatriz, diga, está em seu perfeito juízo?...

Beatriz – Nunca me senti melhor.

Adriano – Nada... a senhora não está no seu estado normal.

Beatriz – Sim, senhor... estou mesmo no natural da minha natureza!

Adriano – Todavia... esta esquisita urbanidade... os obséquios que agora me está fazendo... esta mudança do preto para o cor-de-rosa operada em um instante... tudo, tudo é um fenômeno em nossas relações quotidianas.

Beatriz – Talvez que, às vezes, eu me tinha achado de mau humor... é necessário perdoar os pesares internos que me atormentam: quando se tem recebido uma certa educação, e se chegou a ser...

Adriano – Ah! sim... sim...

Beatriz – É duro ver-se depois a gente reduzida a uma triste posição: tirando disto, eu não sou má, e, olhe, tive sempre por Vossa Senhoria a mais decidida predileção...

Adriano – Senhoria outra vez!... enfim, seja como for, antes como está, do que como estava.

CENA IV

Beatriz , Adriano e Celestina, trazendo manuscritos de música e chapas de cobre.

Celestina – Bom dia, Adriano; trago-te as minhas chapas de música, para que admires os meus progressos.

Beatriz – Oh! Que calamidade! Mãos tão delicadas carregando semelhante peso!

Dê-me isso, senhora, dê-me... ande... sente-se... eis aqui uma caixa... descanse...

Celestina (Admirada) – Obrigada... agradecida... senhora Beatriz; (A ADRIANO)

Adriano, como se explica isto?...

Adriano (A CELESTINA) – Celestina, isto como se explica?...

Celestina – Senhora Beatriz, olhe bem para mim: a senhora está bem certa de quem eu sou?

Beatriz – Oh! Se estou! A senhora é a moça mais bela, mais modesta e mais perfeita das vinte províncias do Império do Brasil, e isto é o que eu tenho sempre dito e sustentado.

Adriano – Senhora Beatriz, pois que enfim a senhora acaba de fazer ponto, concluindo a oração com um sentido perfeito; aproveito o ensejo para pedir-lhe que vá lá para baixo procurar por mim, e ver se me descobre escondido em algum canto.

Beatriz – Pois não, meu senhor, eu deixo Vossa Senhora em liberdade; (À parte) vou em um pulo dar a notícia ao senhor Pantaleão.

Celestina (À parte, pondo uma caixa de relógio na gaveta) – Ele não me está olhando... aproveitemos o momento.

Beatriz – Se Vossa Senhoria tiver necessidade de mim, basta um simples aceno; estou e estarei sempre pronta a servi-lo com gosto; (A CELESTINA) sua serva... (A ADRIANO) senhor... (A CELESTINA) senhora... (A ADRIANO) senhor... (Vai-se fazendo mil cumprimentos, e sem jamais dar as costas)

CENA V

Adriano e Celestina

Celestina – Eu não posso compreender isto...

Adriano – Consola-te comigo, minha amiga; é um prodígio, é um fenômeno estupendo para quem está no último apuro do infortúnio, como eu: sim... porque tudo o estás vendo, é impossível que eu desça mais abaixo, por quanto estou morando quase em cima do telhado.

Celestina – Fizeste algum presente à senhora Beatriz?

Adriano – Qual! Apesar do meu gênio um pouco extravagante, numa me veio ao pensamento semelhante asneira; mas, enfim, deixemos a minha grotesca criada; dize: como achas o meu novo domicílio?...

Celestina – Excelente.

Adriano – Muito pequeno, não é isso?...

Celestina – Não vejo razão para que te estejas lastimando (Canta)

No rico palácio

De outro fulgente

Nem sempre o vivente

Encontra o prazer.

As vezes num rancho

De palha formado

Se vê, como o fado

Dá grato viver.

Ah, sim, que se goza

O néctar mais puro,

Se no rancho escuro

Dois podem caber.

Adriano – É assim, certamente que é assim; mas sempre com a condição de caberem dois no tal ranchinho; e este é o meu rancho... e se algumas economias me fossem possíveis, eu daria aqui mesmo um lugar a ti, como minha legítima mulher.

Celestina – Isso é verdade, Adriano?... bem verdade?... Ah! tu não compreendes como esse pensamento é doce para o meu coração!

Adriano – Não tenho te dito já, Celestina, que logo que as circunstâncias o permitam...

Felisberto (Dentro) – Mais acima?... obrigado.

Adriano – Ainda este maçante alfaiate!...



(continua...)

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