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#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

MENDES – Onde e como venho encontrar-te? (Severo) uma donzela ousa vir meter-se em um quartel de soldados!... (Inês abate-se).

BENJAMIM – Coitadinha!... poupe-a: está arrependida; acabo de ouvi-la em confissão... ficou contrita, e eu absolvi-a.

MENDES – Mas eu não a absolvo: manchou sua reputação, condenou-se às censuras e à zombaria de todos... sou eu padrinho, mas nego-lhe a minha bênção!...

INÊS – Ah!... ah!... (Desata a chorar).

BENJAMIM – Não chore! não chore... senão eu... não poderei conter-me... desato numa berraria...

MENDES – De que servem choros? lágrimas não lavam manchas da vida e do proceder da mulher; o pranto não me comove! (À partee brando) o pior é que eu não posso vê-la chorar!...

INÊS (De joelhos e a chorar) Per... dão... meu pa... drinho...

MENDES (Comovido e à parte) – É preciso ser severo (Alto) Não há perdão!...

semelhante escândalo... não se perdoa!... (À parte) eu creio... que exagero a severidade...

ela está aflitíssima... (Alto) Não se perdoa!...

INÊS (Caindo de bruços a soluçar) – Eu... morro!... ah!...

MENDES – Inês!... Inês! (Erguendo-a) Perdoa-se... não posso mais... perdoa-se!...

eu te perdôo!... (Chorando).

INÊS – Oh!... oh!... sou feliz!... (Abraçando Mendes).

BENJAMIM (Enxugando os olhos) – Isto deve fazer mal... não, deve fazer bem aos nervos..

MENDES (Afastando brandamente Inês) – Deixa-me... tomar tabaco... (Tira a caixa e o lenço, enxuga os olhos, e toma tabaco).

BENJAMIM – Dê-me uma pitada... também preciso tomar tabaco (Toma).

PESTANA (Comovido) – Senhor... padrinho... eu... igualmente... se me faz a honra..

MENDES – Tomem... tomem tabaco (A Inês) que loucura foi essa, Inês?...

INÊS – Foi loucura, foi; mas a causa.. - é mesmo um negócio, de que eu tenho a falar a meu padrinho...

MENDES – Quando eu pensava em casar-te, em te arranjar noivo...

INÊS – Ah, o meu negócio com o padrinho era mesmo esse...

MENDES – Agora? já te perdoei; mas tem paciência: procedeste muito mal, e duvido que eu ache mancebo digno de ti, que deseje casar contigo...

BENJAMIM – Aqui estou eu, Sr. Mendes! eu desejo casar com ela...

MENDES – Reverendo!... que se atreve a dizer?...

BENJAMIM – Não sou frade, não senhor; eu sou o Benjamim que se chamava Antonica da Silva...

PESTANA (À parte) – O frade não é frade!

INÊS – E ele ama-me... e eu o amo, meu padrinho...

MENDES – Un!... agora entendo tudo!... foi a mecha que ficou ao pé do paiol da pólvora! Inês! como diabo vieste a saber que a Antonica da Silva era Benjamim?...

INÊS – Meu padrinho, foi um brinquedo de almas do outro mundo... eu lhe contarei...

MENDES – Prefiro ouvir a lei da providência. (À parte) É o filho do Jerônimo!...

Deus escreve certo por linhas tortas!... e o brejeiro do sacristão é bonito rapaz!...

INÊS (Tomando a mão de Mendes) – Meu padrinho!... meu padrinho!...

MENDES – Dou-te a pior das notícias... por ora nem pensar em casamento...

INÊS – Porque?...

MENDES – Teu pai está furioso contra ti: brigou comigo a tal ponto, que a nossa velha amizade quase ficou estremecida..

INÊS – Oh! é incrível...

MENDES – Faze idéia! o compadre foi falar ao vice-rei, e pouco tardará aqui, trazendo ordem para te darem baixa de soldado...

BENJAMIM (À parte) – Ai, ai! se eu pudesse dar-lhe alta...

INÊS – E que será então de mim?...

MENDES – Levada deste quartel em cadeirinha vais ser conduzida para o convento de Santa Tereza...

INÊS – Para o convento?... eu freira?... meu padrinho, salve-me!... salve-me!

MENDES – Ah!... o compadre não me atende mais; brigou comigo deveras, e eu nada posso contra a autoridade de um pai.

INÊS – Freira! agora sim, arrependo-me do que fiz; freira!... meu padrinho!...

senhor Benjamim...

BENJAMIM – Sr. Mendes!...

MENDES – Reverendo Antonica!...

BENJAMIM – Quer livrar sua linda afilhada do purgatório do convento? ...

MENDES – Quero; mas não sei como..

BENJAMIM – Em cinco minutos (A Pestana) O padrinho da menina me autoriza a levá-la comigo por breves momentos... o senhor deixa?...

MENDES – Eu autorizo.

PESTANA – Não saindo do quartel, fica salva a disciplina. Vá.

BENJAMIM (A Mendes) – Distraia este sargento (Leva Inês até a porta da sala da arrecadação e à porta dá-lhe o hábito de frade; Inês fecha a porta e Benjamim volta) PESTANA – Vão à casa da arrecadação... que arrecadação haverá?

BENJAMIM – Sem dó nem piedade deixou-me em mangas de camisa!... Onde me esconderei (Olhando para uma porta) Tarimba !... Serve por enquanto... (Entra).

MENDES – Sr. sargento, desejava falar ao meu amigo Pantaleão da Braga, cirurgião do regimento.

(continua...)

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