Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
E desta maneira se consumiu este gentio, do qual não há agora senão o que se lançou muito pela terra adentro, ou se misturou com seus contrários sendo seus escravos, ou se aliaram por ordem de seus casamentos. Por natureza, são estes caetés grandes músicos e amigos de bailar, são grandes pescadores de linha e nadadores; também são mui cruéis uns para os outros para se venderem, o pai aos filhos, os irmãos e parentes uns aos outros; e de maneira são cruéis, que aconteceu o ano de 1571 no rio de São Francisco estando nele algumas embarcações da Bahia resgatando com este gentio, em uma de Rodrigo Martins estavam alguns escravos resgatados, em que entrava uma índia caeté, a qual enfadada de lhe chorar uma criança sua filha a lançou no rio, onde andou de baixo para cima um pedaço sem se afogar, até que de outra embarcação se lançou um índio a nado, por mandado de seu senhor, que a foi tirar, onde a batizaram e durou depois alguns dias.
E como no título dos tupinambás se conta por extenso a vida e costumes, que toca a maior parte do gentio que vive na costa do Brasil, temos que basta o que está dito até agora dos caetés.
C A P Í T U L O XX
Que trata da grandeza do rio de São Francisco e seu nascimento.
Muito havia que dizer do rio de São Francisco, se lhe coubera fazêlo neste lugar, do qual se não pode escrever aqui o que se deve dizer dele, porque será escurecer tudo o que temos dito, e não se pode cumprir com o que está dito e prometido, que é tratar toda a costa em geral, e em particular da Bahia de Todos os Santos, a quem é necessário satisfazer com o devido. E este rio contente-se por ora de se dizer dele em suma o que for possível neste capítulo, para com brevidade chegarmos a, quem está esperando por toda a costa.
Está o rio de São Francisco em altura de dez graus e um quarto, o qual tem na boca da barra duas léguas de largo, por onde entra a maré com o salgado para cima duas léguas somente, e daqui para cima é água doce, que a maré faz recuar outras duas léguas, não havendo água do monte. A este rio chama o gentio o Pará, o qual é mui nomeado entre todas as nações, das quais foi sempre muito povoado, e tiveram uns com outras sobre os sítios grandes guerras, por ser a terra muito fértil pelas suas ribeiras, e por acharem nele grandes pescarias.
Ao longo deste rio vivem agora alguns caetés, de uma banda, e da outra vivem tupinambás; mais acima vivem os tapuias de diferentes castas, tupinaés, amoipiras, ubirajaras e amazonas; e além delas vive outro gentio (não tratando dos que comunicam com os portugueses), que se atavia com jóias de ouro, de que há certas informações. Este gentio se afirma viver à vista da Alagoa Grande, tão afamada e desejada de descobrir, da qual este rio nasce. E é tão requestado este rio de todo o gentio, por ser muito farto de pescado e caça, e por a terra dele ser muito fértil como já fica dito; onde se dão mui bem toda a sorte de mantimentos naturais da terra.
Quem navega por esta costa conhece este rio quatro e cinco léguas ao mar pelas aguagens que dele saem furiosas e barrentas. Navega-se este rio com caravelões até a cachoeira, que estará da barra vinte léguas, pouco mais ou menos, até onde tem muitas ilhas, que o fazem espraiar muito mais que na barra, por onde entram navios de cinquenta tonéis pelo canal do sudoeste, que é mais fundo que o do nordeste. Da barra deste rio até a primeira cachoeira há mais de 300 ilhas; no inverno não traz este rio água do monte, como os outros, nem corre muito; e no verão cresce de dez até quinze palmos. E começa a vir esta água do monte, de outubro por diante até janeiro, que é a força do verão nestas partes; e neste tempo se alagam a maior parte destas ilhas, pelo que não criam nenhum arvoredo, nem mais que canas-bravas de que se fazem flechas.
Por cima desta cachoeira, que é de pedra viva, também se pode navegar este rio em barcos, se se lá fizerem, até o sumidouro, que pode estar da cachoeira oitenta ou noventa léguas, por onde também tem muitas ilhas. Este sumidouro se entende no lugar onde este rio sai de debaixo da terra, por onde vem escondido, dez ou doze léguas, no cabo das quais arrebenta até onde se pode navegar, e faz seu caminho até o mar. Por cima deste sumidouro está a terra cheia de mato, sem se sentir que vai o rio por baixo, e deste sumidouro para cima se pode também navegar em barcos, se os fizerem lá; os Índios se servem por êle em canoas, que para isso fazem. Está capaz este rio para se perto da barra dele fazer uma povoação valente de uma banda, e da outra para segurança dos navios da costa, e dos que o tempo ali faz chegar, onde se perdem muitas vezes, e podem os moradores que nele vivem fazer grandes fazendas e engenhos até a cachoeira, em derredor da qual há muito pau-brasil, que com pouco trabalho se pode carregar.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.