Por Padre Antônio Vieira (1647)
Tenho acabado o meu discurso, e sei, senhores, que vos tenho cansado, mas não sei se vos tenho persuadido. Se estais resolutos todos a vos aproveitar de tão inestimáveis tesouros, isto é o que Cristo deseja, e esta a correspondência que espera de vossa devoção: o amor e liberalidade com que para vos encher de graças, abriu e tem aberto o lado. Mas se houver algum cristão indigno de tal nome, que por fraqueza de fé, ou falta de piedade, não agradeça ao mesmo Senhor as mercês que tão de graça lhe oferece, ao menos com as aceitar e estimar como merecem, saiba que esta será a segunda lançada com que lhe penetrará mais dentro o peito aberto, e lhe ferirá o coração. A lançada do Calvário não diz o texto que feriu, senão que abriu o lado; esta segunda lançada é a que só pode ferir e penetrar tão dentro, que lhe chegue ao coração. Vulnerasti cor meum, soror mea sponsa, vulnerasti cor meum in uno oculorum tuorum.18 São queixas de Cristo à sua Igreja, que se compõe de maus e bons, de devotos e indevotos, e de fiéis e infiéis. Diz pois o amoroso Senhor, que sua esposa lhe feriu o coração com um dos olhos: In uno oculorum. E por que não com ambos? Porque os dois olhos da Igreja são a fé e o entendimento, e só com um deles, se se dividem, ferem os homens neste caso o coração de Cristo. Os hereges ferem o coração de Cristo com o olho da fé: In uno oculorum, porque negam a verdade das indulgências e o poder do pontífice para as conceder. Assim as negou Lutero, por sinal que raivoso de se dar a outro pregador o sermão da cruzada, que ele pretendia pregar. E este foi o primeiro erro com que depois se precipitou a tantos. Os católicos, que somos nós, ferem também o coração de Cristo, mas com o olho do entendimento: In uno oculorum, porque crendo o poder do pontífice e a verdade das indulgências, têm alguns tão pouco juízo, que por negligência e pouco cuidado da alma, e por desprezo dos bens do céu, deixam de se aproveitar de tamanhos tesouros. Oh! que ferida esta para o coração de Cristo, tão cruel da nossa parte, e tão sensível da sua!
É possível que há de haver no mundo homem com fé, que podendo-se purificar de todos seus pecados, e pagar a Deus as penas de que lhe é devedor, e uma e outra coisa tão facilmente, o não faça? Mas a mesma facilidade é a causa. É tal a condição vil de nossa natureza, que só estimamos o dificultoso, e desprezamos o fácil. A primeira vez que se concederam as indulgências do Ano Santo, foi tal o concurso de todo o mundo a Roma, que não cabendo a multidão das gentes na cidade, inundava os campos. Se esta mesma bula se concedera uma só vez em cem anos, e no cabo do mundo, lá a havíamos de ir tomar. Pois porque Deus nos facilita tanto este bem, e nos vem buscar com ele à nossa casa, o havemos nós de estimar menos? O que o havia de fazer mais precioso, lhe há de tirar o preço? Tais como isto somos os homens. Quando Eliseu mandou a Naamã Siro que se lavasse no Jordão para sarar da lepra, quis-se ele voltar logo para a sua terra, desprezando o remédio pela facilidade e não crendo que podia ter tanta virtude o que tão pouco custava. Mas que lhe disseram a este príncipe os seus criados, e como o persuadiram a que fizesse o que Eliseu lhe ordenava? Pater; et si rem grandem dixisset tibi propheta, certe facere debueras, quanto magis quia nunc dixit tibi lavare, et mundarebis (4 Rs. 5,13): Senhor, se o profeta vos mandasse fazer uma coisa muito dificultosa, é certo que a havíeis de fazer para sarar da lepra; pois, se vos pede uma coisa tão fácil, como lavar-vos no Jordão, por que o não fareis? – Isto diziam a Naamã os prudentes criados, e o mesmo digo eu aos que não quiserem curar suas consciências e acudir a suas almas para esta e para a outra vida, com um remédio tão fácil. Se para nos purificar de tantas lepras tão feias, tão asquerosas e tão mortais, como são os pecados de todo gênero, e para nos livrar das penas devidas por eles, ou eternas no inferno, ou de muitos anos no purgatório, devíamos aceitar qualquer partido, e oferecer-nos muito de grado a qualquer satisfação, por dura e dificultosa que fosse, uma tão fácil como esta, em que tudo se nos concede e perdoa de graça, por que a desprezareinos? Se há alguém que saiba responder a este porquê, deixe embora de tomar a Bula. Mas porque estou certo que nenhum entendimento que tenha fé, lhe pode achar resposta, quero-vos deixar com a mesma pergunta nos ouvidos, esperando que por eles nos abra os corações aquele mesmo Senhor que, para nos encher de tantas graças, se deixou abrir o peito: Unus militum lancea latus ejus aperuit.
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.