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#Sermões#Retórica

Sermão da Quinta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Ainda passou muito avante esta presunção no caso de hoje. O cego, depois que Cristo o alumiou, ficou um lince na vista, e as toupeiras queriam guiar o lince. Que um cego queira guiar outro cego, e uma toupeira outra toupeira, cegueira é muito presumida; mas que as toupeiras quisessem guiar o lince, e os cegos dar lições de ver a quem tinha olhos, e olhos milagrosos, foi a mais louca presunção que podia caber em todas as cegueiras. Todo o intento hoje dos escribas e fariseus, e todas as diligências e instâncias com que perseguiam o cego alumiado, e com que o queriam persuadir que agora estava mais cego que dantes, eram a fim de o apartarem da luz e conhecimento de Cristo, e o tirarem e trazerem à sua errada opinião. Ele dizia: Scimus quia peccatores Deus non audit. Eles diziam: Nos scimus quia hic homo peccator est.27 E sendo estas duas proposições tão encontradas, toda a diferença por que condenavam a ciência do cego, e canonizavam a sua, era serem eles os que diziam: Nos scimus. Aquele nós tão presumido, e tantas vezes inculcado nesta demanda, era todo o fundamento da sua censura. Nós o dizemos, e tudo o mais é ignorância e erro. Nós, como se não houvera nós cegos, e como se não fora certo o que eles já tinham inferido: Nunquid et nos caeci sumus.28 O homem dos olhos milagrosos confutava-os, confundia-os, e tomava-os às mãos; e eles, porque não sabiam responder aos argumentos, tornavam-se contra o argumentante, e fixados no seu nós, diziam mui inchados: Et tu doce nos? E quem és tu para nos ensinar a nós? – Eu perguntara a estes grandes letrados: E quem sois vós, para não aprender dele? Ele arrazoa vivamente: vós não dais razão; ele prova o que diz: vós falais e não provais; ele convence com o milagre que Cristo é santo: vós blasfemais que é pecador; ele demonstra com evidência quem é ele: vós buscais testemunhas falsas que digam que é outro; ele é uma águia que fita os olhos no sol: vós sois aves noturnas que cegais com a luz; ele, enfim, é lince, e vós toupeiras, e no cabo vós tão vãos e tão presumidos que cuidais que vedes mais com a vossa cegueira do que ele com os seus olhos. Viu-se jamais presunção tão cega? Só uma acho nas Escrituras semelhante, mas também em Jerusalém, que só em uma terra onde se crucifica a Cristo se podem criar e sofrer tais monstros.

Os soldados que guardavam o Calvário, tendo ordem que acabassem de matar aos crucificados, tanto que viram que Cristo estava já morto, passaram adiante: Ut viderunt eum iam mortuum, non fregerunt ejus crura.29 Isto fizeram os soldados que tinham olhos. E Longuinhos, que era cego, que fez? Deu-lhe a Cristo a lançada. Quem mete a lança na mão de um cego, quer que ele a meta no peito de Cristo. Pois, se os que tinham olhos viram que Cristo estava já morto, o cego, por que o quis ainda matar, como se estivera vivo? Porque, sendo cego, e tão cego, era tão presumido da vista, que cuidava que via melhor com os seus olhos fechados que os outros com os olhos abertos. Oh! quantos Longuinhos há destes no mundo, e tão longos, e tão estirados, e tão presumidos! Mas a culpa não é sua, senão dos generais. Se Longuinhos era cego, por que havia de comer praça de soldado? Se acaso tinha muitos anos de serviço, dêem-lhe uma mercearia. Já que é cego, seja rezador. Mas sem olhos, e com a lança na mão? Sem vista, e com a praça aclarada? E como não havia de presumir muito dos seus olhos, se sendo cego o não reformavam? Ele foi muito presumido, mas tinha a presunção por si. Ouvi a Isaías, falando com a mesma República de Jerusalém: Speculatores tui caeci omines (Is. 56,10): as tuas sentinelas, ó Jerusalém, todas são cegas. – A cidade muito fortificada, porque tinha três ordens de muros, mas as sentinelas todas tão mal providas, que em cada uma punham a vigiar um cego. E se o cego se via levantado sobre uma torre, e posto numa guarita, como não havia de presumir muito da sua vista? Eles tinham a presunção por si, mas a presunção e o posto não lhes diminuíam a cegueira. Os postos não costumam dar vista, antes a tiram a quem a tem, e tanto mais quanto mais altos. Por isso, aos escribas e fariseus se lhes foi o lume dos olhos. Cegos coma presunção do ofício, e porque era ofício de ver, muito mais cegos: Ut videntes caeci fiant.

VI

Ver sem remediar não é ver vendo, é ver sem ver. Apelo final à cristandade. Oração.

(continua...)

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