Por Padre Antônio Vieira (1655)
Perguntam os controversistas se assim como nas Sagradas Escrituras são de fé as palavras, serão também de fé os pontos e vírgulas? E respondem que sim, porque os pontos e vírgulas determinam o sentido das palavras, e variados os pontos e vírgulas, também o sentido se varia. Por isso antigamente havia um conselho chamado dos massoretas, cujo ofício era conservar incorruptamente em sua pureza a pontuação da Escritura. Esta é a galantaria misteriosa daquele texto dos Cânticos: Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatas argento (Cânt. 1,10). Diz o Esposo divino que fará à sua esposa umas arrecadas de ouro, esmaltadas de prata; – e o esmalte, segundo se tira da raiz hebraica, era de pontos e vírgulas, porque, em lugar de vermiculatas, lêem outros: punctatas, virgulatas argento. Mas se as arrecadas eram de ouro, por que eram os esmaltes de prata, e formados de pontos e vírgulas? Porque as arrecadas são ornamento das orelhas, onde está o sentido da fé: Fides ex auditu22 (Rom. 10, 17), e nas palavras de fé, ainda que os pontos e vírgulas pareçam de menos consideração, assim como a prata é de menos preço que o ouro, também pertencem à fé tanto como as mesmas palavras. As palavras, porque formam o significado; os pontos e vírgulas, porque distinguem e determinam o sentido, Exemplo: Surrexit, non est hic (Mc. 16,6): Ressuscitou, não está aqui. – Com estas palavras diz o evangelista que Cristo ressuscitou, e com as mesmas palavras, se se mudar a pontuação, pode dizer um herege que Cristo não ressuscitou: Surrexit? Non. Est hic. Ressuscitou? Não. Está aqui. – De maneira que só com trocar pontos e vírgulas, com as mesmas palavras, se diz que Cristo ressuscitou, e é fé, e com as mesmas se diz que Cristo não ressuscitou, e é heresia. Vede quão arriscado ofício o de uma pena na mão. Ofício que, com mudar um ponto ou uma vírgula, da heresia pode fazer fé, e da fé pode fazer heresia. Oh! que escrupuloso ofício!
E se a mudança de um ponto e de uma vírgula pode fazer tantos erros e tantos danos, que seria se se mudassem palavras? Que seria se se diminuíssem palavras? Que seria se se acrescentassem palavras? Torno a dizer: se a mudança de um ponto e de uma vírgula pode ser causa de tantos danos, que seria se se calassem regras? Que seria se faltassem capítulos? Que seria se se sepultassem papéis e informações inteiras? E que seria se, em vez de se presentarem a quem havia de pôr o remédio, se entregassem a quem havia de executar a vingança? Tudo isto pode caber em uma pena, e eu não sei como pode caber em uma confissão. Pois é certo que se confessam, e muitas vezes, os que isso fazem, e que não falta quem absolva estas confissões, ou quem se queira condenar pelas absolver. Mas eu nem absolvo os confessados, nem condeno os confessores, porque só me admiro com as turbas: Et admiratae sunt turbae.
§VII
Cur? Por quê? Por dinheiro? O escrúpulo dos motivos. O respeito, pior que o dinheiro. Pilatos e o respeito a César. Os juízes de Samaria e a condenação de Nabot. Pilatos, Judas, e a condenação de Cristo.
Cur? Por quê?.
Esta matéria dos porquês era bem larga, mas vainos faltando o tempo, ou vou eu
sobejando a ele, e assim neste ponto e nos seguintes usarei mais cortesmente da
paciência com que ouvis: mas não há confissão sem penitência. Cur? Por quê? De
todas estas sem-razões que temos referido ou admirado, quais são as causas?
Quais são os motivos? Quais são os porquês? Não há coisa no mundo por que um
homem deva ir ao inferno, contudo ninguém vai ao inferno sem seu porquê. Que
porquês são logo estes que tanto cegam, que tanto arrastam, que tanto
precipitam aos maiores homens do mundo? Já vejo que a primeira coisa que acorre
a todos é o dinheiro. Cur? Por quê? Por dinheiro que tudo pode, por dinheiro
que tudo vence, por dinheiro que tudo acaba. Não nego ao dinheiro os seus
poderes, nem quero tirar ao dinheiro os seus escrúpulos; mas o meu não é tão
vulgar nem tão grosseiro como este. Não me temo tanto do que se furta, como do
que se não furta. Muitos ministros há no mundo, e em Portugal mais que muitos,
que por nenhum caso os peitareis com dinheiro. Mas estes mesmos deixam-se
peitar da amizade, deixam-se peitar da recomendação, deixam-se peitar da
independência, deixam-se peitar do respeito. E não sendo nada disto ouro nem
prata, são os porquês de toda a injustiça do mundo. A maior sem justiça que se
cometeu no mundo foi a que fez Pilatos a Cristo, condenando à morte a mesma
inocência. E qual foi o porquê desta grande injustiça? Peitaram-no? Deram-lhe
grandes somas de dinheiro os príncipes dos sacerdotes? Não. Um respeito, uma
dependência foi a que condenou a Cristo. Si hunc dimittis, non es amicus
Caesaris (Jo. 19,12): Se não condenais a este, não sois amigo de César. – E por
não arriscar a amizade e graça do César, perdeu a graça e amizade de Deus, não
reparando em lhe tirar a vida. Isto fez por este respeito Pilatos, e no mesmo
tempo: Aqua lavit manus suas (Mt. 27,24): Pediu água, e lavou as mãos. – Que
importa que as mãos de Pilatos estejam lavadas, se a consciência não está
limpa? Que importa que o ministro seja limpo de mãos, se não é limpo de
respeitos? A maior peita de todas é o respeito.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.