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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

Enquanto Moisés se detinha no monte recebendo a lei, cansados os judeus (que agora não cansam) de esperar, disseram assim a Arão: Fac nobis Eloim, qui nos praecedat (Êx. 32, 1): Arão, fazeinos um Deus que possamos ver e seguir, e vá diante de nós nesta viagem. – Notai a palavra Eloim, que não só significa Deus, senão o Deus verdadeiro que criou o céu e a terra. Assim o escreveu Moisés nas primeiras palavras que escreveu: In principio creavit Eloim caelum et terram (Gên. 1,1). Esta proposta pois dos judeus tinha dois grandes reparos: o primeiro, que pediram a um homem que lhes fizesse Deus; o segundo, que pediram isto a Arão, e não a outro homem. Não sabiam os hebreus que Deus é imenso e que ocupa todo o lugar? Pois como lhe pediam que fizesse um Deus que pudesse mudar lugar e ir diante? Não sabiam que Deus é invisível, e fora da esfera e objeto dos olhos humanos? Pois como pediam que lhes fizesse um Deus que pudessem ver e seguir? Tudo isto quer dizer: Qui nos praecedat E já que pediam esta grande obra e este grande milagre a um homem, não estavam ali outras grandes pessoas, cabeças das tribos e governadores do povo, e sobre todos não estava Hur, nomeado pelo mesmo Moisés por adjunto de Arão, enquanto durasse a sua ausência? Habetis Aaron, et Hur, si quid natum fuerit quaestionis, referetis ad eos2. Pois por que não pediram a Hur;, ou a algum dos outros, que obrasse essa maravilha, senão a Arão e só a Arão? Aqui vereis quão racionais são e quão conformes ao entendimento humano os mistérios da fé católica. Ainda quando os judeus foram hereges da sua fé, não puderam negar a razão da nossa. Pediram os judeus a Arão que lhes fizesse um Deus que pudessem ver e seguir, porque entenderam que ainda que Deus era imenso e invisível, sem menoscabo de sua grandeza, se podia limitar a menor esfera, e sem perigo de sua invisibilidade, se podia encobrir debaixo de alguma figura e sinal visível. E escolheram por ministro desta maravilha a Arão, que era sacerdote, e não a outrem, porque entenderam também que ação tão sobrenatural e milagrosa, como pôr a Deus debaixo de espécies criadas, não podia competir a outro senão ao sacerdote. Eis aqui o que os judeus pediram então, e eis aqui o que nós adoramos hoje: um Deus debaixo de espécies visíveis, posto nelas milagrosamente por ministério dos sacerdotes. Os judeus foram os que traçaram o mistério, e nós somos os que o gozamos; eles fizeram a petição, e nós recebemos o despacho; eles erraram, e nós não podemos errar. E em que esteve a diferença? Esteve só a diferença em que eles creram que se podia fazer esta maravilha por autoridade humana: Fac nobis Eloim qui nos praecedat; e nós cremos que só se faz e se pode fazer por autoridade divina: Hoc facite in mean commemorationem (Lc. 22,19). E que crendo o judeu que se podia fazer por poder humano, não creia que se possa fazer por onipotência divina: Quomodo potest? Não é isto só erro da fé: é cegueira da razão.

E se não, ajude-se a razão da experiência. Quando os judeus neste caso adoraram o bezerro, no mesmo dia os castigou Deus, matando mais de vinte mil deles (Êx. 32,18). É assim? Logo bem se segue que está Deus na hóstia consagrada. Provo a conseqüência. Se Deus, ponhamos este impossível, se Deus não está naquela hóstia, todos os cristãos somos idólatras, como o foram os judeus quando adoraram o bezerro. É certo porque em tal caso reconhecemos divindade onde a não há. Pois se somos idólatras, por que nos não castiga Deus, assim como castigou aos judeus? Aperto a dúvida: porque os judeus adoraram o bezerro uma só vez, os cristãos adoramos a hóstia consagrada há mil e seiscentos anos; os judeus adoraram o bezerro em um só lugar, os cristãos adoramos o Sacramento em todas as partes do mundo; os judeus que adoraram o bezerro eram de uma só nação, e os cristãos que adoram o Sacramento são de todas as nações do universo. Ainda falta o mais forçoso argumento. Muitos dos que crêem e adoram este soberano mistério, são hebreus da mesma nação, verdadeiramente convertidos à fé; o mesmo autor e instituidor dele, Cristo Redentor e Senhor nosso, era hebreu; os primeiros que o adoraram, creram e comungaram, que foram os apóstolos e os discípulos, eram também hebreus, e esses mesmos hebreus foram os primeiros sacerdotes que o consagraram, e os primeiros pregadores que o levaram, promulgaram, fundaram e estabeleceram por todo o mundo. Pois se Deus é o mesmo, e os adoradores deste mistério os mesmos, por que os não castiga Deus a eles e a nós, como castigou aos antigos hebreus? Se adorar aquela hóstia é idolatria, como foi adorar o bezerro, por que sofre Deus mil e seiscentos anos na face de todo o mundo, o que não sofreu um dia em um deserto? É porque eles foram verdadeiramente idólatras, e nós somos verdadeiros fiéis; é porque eles, adorando o bezerro, reconheciam divindade onde não havia, e nós, adorando aquela hóstia consagrada, reconhecemos divindade onde verdadeiramente está Deus. De maneira, judeu, que com o teu mesmo castigo, com as tuas mesmas Escrituras, e com o teu mesmo entendimento, te está convencendo a razão a mesma verdade que negas, e os mesmos impossíveis e dificuldades que finges.



(continua...)

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