Por Eça de Queirós (1925)
O hábito de depender absolutamente do lente, de se curvar servilmente diante da sua austera figura, de obter por meio de empenhos que a sua severidade se abrande, forma os espíritos no salutar respeito da autoridade. O sentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor exagerado da independência civil. Cada um se torna por este modo o seu próprio dono, o seu chefe, o seu Rei, o seu Deus. E a anarquia! Assim educado, durante cinco anos, a curvar-se, a solicitar, a sorrir, a obedecer, a lisonjear, a suplicar, a depender, o bacharel entra na vida pública disciplinado, e, em lugar de ser o homem que quer tomar na vida o lugar que lhe convém (o que seria a desorganização das posições sociais) vai humildemente colocar-se, com um sorriso, no lugar, na fila, no cantinho que lhe marcam os que governam. Assim se forma uma imperecível harmonia social.
O jovem Abranhos bem depressa mostrou, em Coimbra, o seu profundo amor da Disciplina e da Ordem.
O lente de Direito Natural era então o velho Dr. Pascoal; já muito míope, a sua veneranda ciência, os seus achaques, os seus serviços de decano, inspiravam a todos os que admiram estes vetustos sábios encanecidos nos comentários de vetustos compêndios, uma admiração simpática.
Havia, porém, nesse curso (a recordação recente das guerras civis de algum modo o explica) temperamentos rebeldes e perniciosos, que, por o ancião pertencer a uma velha família Miguelista, procuravam como dizia o Conde, achincalhar a prelecção. Foi assim que uma ocasião, de repente, de entre os bancos, um morcego solta o voo, e estonteado pela luz, esvoaça furiosamente, vai bater nos vidros, vai bater nas paredes, vai bater, finalmente, no rosto venerável do Dr. Pascoal. O velho grita, o archeiro corre... Mas, como diz o nosso grande poeta, autor dos Cânticos do Céu:
Quem sabe donde vem a aragem fresca?
Quem sabe donde vem o voo d'ave?
Quem sabe de onde vinha o morcego?
No dia seguinte, tinha justamente o venerando doutor aberto a pauta – quando outro morcego, maior, mais negro, começa a esvoaçar furiosamente pela aula! O respeitável Dr. Pascoal fechou a pauta, saiu da aula, todo trémulo, todo branco...
Alípio, porém, vira o condiscípulo indigno que soltara os morcegos, e ali mesmo, na geral, decidiu, por amor da disciplina violada e do professorado ultrajado, acusá-lo ao decano. Mas como repugnava ao seu carácter leal ir, de viva voz, a casa do Dr. Pascoal, denunciar o condiscípulo, redigiu uma carta anónima com estas palavras:
O vilão que arrojou o morcego às faces de V. Ex.ª perturbou o recinto escolar, é o nº 89!
Era um certo Adriano Cravilho, que – posto que de uma inteligência notável e de.18 um temperamento honesto – tinha, como se diz em Coimbra, «o furor de fazer partidas».
Uma semana depois, condenado por um processo secreto e sumário, era riscado da Universidade perpetuamente. O respeitável Dr. Pascoal, porém, ficara tão reconhecido ao «anónimo» que lhe revelara o autor do malefício, que costumava dizer no conselho da faculdade, que, se soubesse quem era, «pespegava-lhe um accessit no fim do ano. Porque enfim, colegas, livrou a aula de um malvado!»
Estas palavras, espalhadas, impressionaram Alípio. O seu acto apareceu-lhe revestido de uma importância inesperada; examinando-o, descobria-lhe a nobreza, via-o como um verdadeiro serviço feito à Ciência, à Disciplina, à Ordem, ao princípio autoritário. E considerava que se é justifi-cado o pudor que nos faz ocultar o serviço feito a um amigo, há uma falsa modéstia em esconder um benefício prestado à sociedade. Pode esquivar-se ao reconhecimento quem salva um homem – não quem salva um princípio!
E dias antes dos actos, dirigiu-se a casa do Dr. Pascoal, e escrevendo diante dele as palavras textuais da carta anónima, convidou-o a comparar as letras, provando ao venerável professor que era ele, Alípio Abranhos, quem prestara aquele serviço tão marcante à Disciplina.
– Pois faz favor de deixar o seu nome... faz favor de deixar o seu nome – exclamou o ancião, que estava na idade em que a memória é como tela gasta, que, repuxada, se esgaça.
Alípio deixou o seu nome – e no fim do ano recebia o 1º accessit.
Teve ainda o 1º accessit no segundo ano –ano em que ele, justamente, dedicou a sua dissertação sobre o Direito das Gentes ao Dr. Capelo, conhecido pela redundância dos seus períodos, com esta dedicatória: «Ao Deus da Eloquência, Ex.mo Dr. Capelo, of. d. c. Alípio Abranhos, discípulo deslumbrado».
Teve uma distinção no terceiro ano – ano, exactamente, em que (segundo vejo nas suas notas) a tia Amália lhe aumentou a mesada, o que habilitou Alípio a fazer presentes delicados a D. Rosalinda Carreira, que a calúnia então apontava como concubina do seu lente de Direito
Civil.
No quarto ano recebeu enfim o segundo prémio – para o que concorreu uma sabatina em que, argumentando com o lente, o sofista Dr. Abreu, e enleado por um sofisma complexo, lhe lançou estas belas palavras: «não sei o que hei-de responder; a luta é desigual: eu só tenho por mim o estudo e V. Exª, tem o génio!»
No quinto ano, ignoro que recompensa recebeu a sua fecunda aplicação.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.