Por Eça de Queirós (1878)
Houve um silêncio comovido, e à porta uma voz fina, disse:
- Dão licença?
- Oh, Ernestinho!... - exclamou Jorge.
Com um passo miudinho e rápido, Ernestinho veio abraçá-lo pela cintura:
- Eu soube que tu partias, primo Jorge... Como está, prima Luísa?
Era primo de Jorge. Pequenino, linfático, os seus membros franzinos, ainda quase tenros, davam-lhe um aspecto débil de colegial; o buço, delgado, empastado em cera mostacha, arrebitava-se aos cantos em pontas afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com grandes laços de fita; sobre o colete branco, a cadeia do relógio sustentava um medalhão enorme, de ouro, com frutos e flores esmaltados em relevo. Vivia com uma atrizita do Ginásio, uma magra, cor de melão, com o cabelo muito riçado, o ar tísico - e escrevia para o teatro. Tinha traduções, dos originais num ato, uma comédia, em calembures. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra considerável, um drama em cinco atos, a Honra e paixão. Era a sua estréia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos inchados de manuscritos, com localistas, com atores, muito pródigo de cafés e de conhaques, o chapéu ao lado, descorado e dizendo a todos: "Esta vida mata-me!" Escrevia todavia por paixão entranhada pela Arte - porque era empregado na alfândega, com bom vencimento, e tinha quinhentos mil réis de renda das suas inscrições. A Arte mesma, dizia, obrigava-o a desembolsos; para o ato do baile da Honra e paixão mandara fazer, à sua custa, botas de verniz para o galã, botas de verniz para o pai nobre! O seu nome de família era Ledesma.
Deram-lhe um lugar, e Luísa notou logo, pousando o bordado, que estava abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrasavam-no; tinha turras com o empresário; na véspera vira-se forçado a refazer todo o final de um ato! Todo!
- E tudo isto - acrescentou muito exaltado - porque é um pelintra, um parvo, e quer que se passenuma sala o ato que se passava num abismo!
- Num quê? - perguntou surpreendida D. Felicidade.
O Conselheiro, muito cortês, explicou:
- Num abismo, D. Felicidade, num despenhadeiro. Também se diz, em bom vernáculo, um vórtice. - Citou: "Num espumoso vórtice se arroja..." - Num abismo!? - perguntaram. - Por quê?
O Conselheiro quis conhecer o lance.
Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo: - Era uma mulher casada. Em Sintra tinhase encontrado com um homem fatal, o Conde de Monte Redondo. O marido, arruinado, devia cem contos de réis ao jogo. Estava desonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruínas acasteladas, onde habita o conde, deixa cair o véu, conta-lhe a catástrofe. O conde lança o seu manto aos ombros, parte, chega no momento em que os beleguins vão levar o homem. É uma cena muito comovente - dizia - é de noite, ao luar! - O conde desembuça-se, atira uma bolsa de ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: "Saciai-vos, abutres!..." - Belo final! - murmurou o Conselheiro.
- Enfim - acrescentou Ernesto, resumindo -, aqui há um enredo complicado: o Conde de MonteRedondo e a mulher amam-se, o marido descobre, arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa.
- Como? - perguntaram.
- Atira-a ao abismo. E no quinto ato. O conde vê, corre, atira-se também. O marido cruza osbraços e dá uma gargalhada infernal. Foi assim que eu imaginei a coisa!
Calou-se, ofegante; e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os seus olhos langorosos, prateados como os de um peixe morto.
- É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões! - disse o Conselheiro, passando as mãossobre a calva. - Os meus parabéns, Sr. Ledesma!
- Mas que quer o empresário? - perguntou Julião, que escutara de pé, atônito - que quer ele?Quer o abismo num primeiro andar, mobilado pelo Gardé?
Ernestinho voltou-se, muito afetuosamente:
- Não, Sr. Zuzarte - a sua voz era quase meiga -, quer o desfecho numa sala. De modo que eu e fazia um gesto resignado - a gente tem de condescender, tive de escrever outro final. Passei a noite em claro. Tomei três chávenas de café!...
O Conselheiro acudiu, com a mão espalmada:
- Cuidado, Sr. Ledesma, cuidado! Prudência com esses excitantes! Por quem é, prudência!
- A mim não me faz mal, Sr. Conselheiro - disse sorrindo. - Escrevo em três horas! Venho de lhomostrar agora. Até o tenho aqui...
- Leia, Sr. Ernesto, leia! - exclamou logo D. Felicidade.
Que lesse! Que lesse! Por que não lia?
Era uma maçada!... Era um rascunho... Enfim, como queriam!... E radiante desdobrou, no silêncio, uma grande folha de papel azul pautado.
- Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A coisa não está ainda com todos os ff e rr. - Fez então voz teatral: - ÁGATA!... É a mulher; isto aqui é a cena com o marido, o marido já sabe tudo...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.