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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

Aceitaram os peregrinos o convite hospitaleiro: sentaram-se e comeram do pão molhado em mel e beberam pelo mesmo tarro o leite cheiroso.

Ficaram os dois velhos conversando e Maria, encostando-se aos feixes de trigo, cobriu o rosto com o manto e adormeceu.

As moças cantavam na eira levantando moedas de ouro e, sob o sol escaldante, no alto céu azul, as cotovias voavam e os seus gritos abrandavam-se na distância, esmoreciam perdidamente.

NA ESTRADA DE BELÉM

Frio e pálido, esfumado em brumas, o crepúsculo baixava na tristeza da tarde silenciosa.

No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras imóveis pareciam gravadas em negro no fundo dourado do ocaso. Aves esvoaçavam caladas.

Docemente, com um trêmulo murmúrio, fluíam pelos canais de rega as águas levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, devagar, no campo restolhado, soavam como gemidos. Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anêmonas. Maria parava de instante a instante, arfando.

Amolecida, alquebrada, olhava com desânimo os outeiros ainda longínquos e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cansaço. José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a carinhoso:

- Estamos a chegar. Lá aparecem as casas de Belém; as luzes brilham por entre as árvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.

Ela parou, ficou a olhar o céu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem.

- É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que não sei se poderei acompanhar-vos até as colinas de além. toda eu esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas ervas, e dormir um sono grande.

Nunca me pesou tanto o corpo, o próprio espírito pesa-me, tão carregado está de medo e de cuidados sombrios.

Que será de mim e d’Ele ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de tudo, à friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal?

O chiar de um carro levou-lhes a atenção para o caminho deserto. Uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda:

Ervas do campo florido,

Que aroma! que trescalar! Bem se vê que o seu vestido Andou por vós a roçar.

Outeiro em flor, o teu velo,

Verde e fino, ao meu ciúme Confessa que o seu cabelo Deixou nele o perfume.

O carro apareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois que traziam os cornos floridos de acácias.

José dirigiu-se ao carreiro, robusto e moço, e pediu-lhe passagem para Maria, mostrandoa, prostrada e lânguida, entre o rosmaninho cheiroso.

O moço acedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram.

E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d’aguilhada ao ombro, olhos fitos no céu, insistia na égloga:

Ervas do campo florido,

Que aroma! que trescalar! Bem se vê que o seu vestido Andou por vós a roçar.

NA CAVERNA

Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e disse:

- Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita e fácil, guia-vos a Belém. Seja o Senhor convosco.

Sem esforço, José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, agradecendo ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E ele, galantemente, respondeu:

- Trouxe a flor viva do trigal ceifado, e, com tão jeitosa resposta, despediu-se e foi-se, aguilhada ao ombro, devagar, à frente dos bois, cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.

Os dois caminharam alguns passos. Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida de sofrimento; mas não pode ir além da caverna e deteve-se.

O áspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao trêmulo flamejar duma fogueira junto à qual um velho pastor, de mãos estendidas ao lume, cantarolava baixinho. Ovelhas ondulavam na sombra.

Logo à entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma manjedoura. Um jumento dormitava e, junto dele, ruminando, jazia deitada uma vaca com o seu novilho. Disse José à Maria:

- Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em alguma estalagem. Ela sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos foram para a caverna. O patriarca, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor. - Seja o senhor convosco! - Bem-vindo seja o que chega e desce com os olhos até a minha humildade.



(continua...)

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