Por Adolfo Caminha (1896)
Evaristo falou, com efeito, ao secretário, no próprio Banco, acerca do empréstimo, alegando razões de ordem doméstica. — Era mais um grande favor ao "amigo Furtado...
— Queres um conselho de amigo? pergunta Luís.
— Não contraias empréstimo ao Banco. O Banco foi criado para altas transações financeiras, e... e o diretor é um homem... um homem...
— ... um homem de têmpera antiga, velho e rabugento. Espera aí um bocado...
O secretário levantou-se, abriu um cofre de ferro, que estava no gabinete de trabalho, e contou duzentos mil-réis.
— Toma lá, sou eu quem tos empresta sem juros e sem prazo. Restituirás no fim do mês... daqui a um ano, daqui a um século...
— Isso não! interrompeu o marido de Adelaide. - Vim pedir ao Banco e não quero que te sacrifiques por minha causa. Isso não!
— Toma lá, homem, não sejas menino. Eu que tos empresto, é que tenho absoluta confiança em ti - que diabo!
— Qual confiança! Isso já não é ser amigo, é ser pai! — Pois quero ser teu pai - dá-me essa honra.
Riram e o bacharel guardou as notas na algibeira da calça, com um movimento discreto e reconhecido. - Ora, muito obrigado, Sr. Luís, muito obrigado!
— Cavalheiros somos, na carreira andamos... - disse enfaticamente, com um sorriso, o fidalgo de Botafogo.
Às quatro horas iam os dois no mesmo bonde a caminho de casa.
O bacharel entrou radiante, com um estranho fulgor na pupila. Adelaide acompanhou-o ao quarto.
— Sabes o que é isto? — foi dizendo com a mão espalmada no bolso.
E, antes que Adelaide respondesse, tirou o dinheiro, erguendo a mão em triunfo.
—Quanto? — perguntou a rapariga com aquele risinho ingênuo que lhe era muito natural.
— Vinte!
— Vinte? apenas vinte?
— ... notas de dez! — Ah!...
Evaristo, então, narrou, palavra por palavra, o diálogo entre ele e Furtado, no Banco, e não ocultou o seu entusiasmo pela "generosidade" do amigo, que ainda uma vez se revelara "digno e correto!"
— Belo homem, o Luís!
Eu também acho... — murmurou Adelaide.
— Olhe que me colocou, deu-me hospedagem, trata-nos à vela de libra, e agora... duzentos mil-réis, para pagar amanhã, no fim do ano, daqui a um século!
Adelaide aprovou com a cabeça o entusiasmo do marido.
E na mesma tarde, ao anoitecer, foram ambos dar um giro à Rua do Ouvidor.
CAPÍTULO III
Luís Furtado era homem de meia-idade, alto, robustez física invejável, pele rósea e conservada, bigode negro, tratado a brilhantina, olhos negros e comunicativos, um pouco lânguidos, talvez por afetação, talvez por temperamento.
Belo, verdadeiramente belo, ninguém o diria sem risco de profanar o ideal antigo da beleza máscula; no entanto, podia dizer-se dele que era, na acepção moderníssima, um bonito homem. A convivência na Corte dera-lhe tintas de nobreza ao rosto largo de provinciano setentrional. O Rio de Janeiro, com o seu maravilhoso poder de cidade cosmopolita, afinara-lhe a cútis e a educação. Davam-lhe doutor, mas, em verdade, nunca pusera os pés numa academia; os preparatórios mesmo, ele os não completara; e como no Rio de Janeiro, na Corte, toda a gente é doutor, ninguém punha dúvida no fictício diploma de Luís Furtado.
Mas a qualidade característica do secretário do Banco Industrial era o amor às mulheres, uma tendência notável para as conquistas de boudoirs, para o livre câmbio de afeições delicadas, para o culto imoderado de Vênus. Esse fraco, longe de o desprestigiar no conceito das rodas aristocráticas, tornava-o ainda mais querido de um e outro sexo, que viam no esposo de D. Branca, um homem de bom gosto, entendido em essências finas e em cotillons. Quem é que, em Botafogo, não o admirava, quem? Chegava-se até a dizer, num exagero, que era a alma do bairro!
O casamento não lhe tirava a liberdade de homem que se governa; cumpria seus deveres conjugais; nada faltava à mulher, nem aos filhos, todos em casa o estimavam; queria, portanto, sua liberdade; "a melhor coisa que Deus deu ao homem". Tinha idéias definitivas, absolutas, sobre o casamento e opunha-as a qualquer moralista indiscreto que lhe fosse criticar os atos.
D. Branca nunca se agastava com ele, nunca lhe fizera a menor objeção no tocante às suas aventuras donjuanescas. Quando alguém, homem ou mulher, os queria intrigar e levava ao conhecimento dela fatos particulares da vida do esposo, a ilustre senhora tinha sempre um risinho de incredulidade: "— O Furtado era um bom marido e um bom pai de família. Os invejosos é que o queriam desmoralizar".
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.