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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Fora maniqueu, como Santo Agostinho, e muitas vezes censurou a este ilustre patriarca o ter-se convertido ao mistério da eucaristia, repugnante à razão esclarecida (pretensiosa ignorância!), e ter esquecido o preceito do mestre que toda a guerra é injusta e ilícita. E no isolamento da sua pobre cama de vento exalava em suspiros de inveja os ardores da paixão sensual que, sobretudo, o dominava, lamentando não ter tido, como santo, ocasião de pecar antes da conversão, atolando-se nos mistérios lúbricos e imundos com que aqueles hereges maniqueus solenizavam as vigílias de determinadas noites, renovando os horrores atribuídos aos gnósticos.

Fora milenário com S. Justino e Santo Ambrósio, e longas noites sonhara a Jerusalém de ouro, cedro e cipreste em que ele, Antônio de Morais, na companhia de Cristo e dos Santos Patriarcas, gozaria os mil anos de ventura terrena prometidos por Papias em vista da tradição e de textos expressos, que o seminarista lia, relia e meditava na convicção da verdade, antegostando as delícias dum paraíso na terra, que imaginava semelhante ao de Maomé, o árabe, com as huris muito gozadas e eternamente virgens!

Como o Dr. Cerdon, passara as sua horas de meditação a sair e entrar na ortodoxia. Acreditara na dualidade divina, como Marcion, com cuja doutrina identificara-se por uma semana inteira, ficando-lhe ainda fundos vestígios na alma e no coração dos princípios ardentes e severos desse famoso herege, bem como das vacilações e dúvidas com que lutou a sua existência inteira.

Fora místico, como o frígio Montário. Levara três dias sem escovar os dentes e sem pentear o cabelo, apesar de ser o janota do Seminário. Chegara mesmo a adotar a heresia dos valérios e dos origenistas, mas não tivera a coragem de praticar em si mutilação alguma, chegando a convencer-se de que estava em erro palmar, quando experimentara as dorezinhas agudas duma canivetada de ensaio. Nos intervalos da adoção duma e doutra heresia, voltava-se ardentemente para a ortodoxia com grandes desalentos e tentativas de disciplinar-se.

O padrinho o viera ver algumas vezes ao Seminário, em raras viagens que fazia à capital para sortir o sítio do necessário e habilitar-se a negociar com os matutos da vizinhança.

Trazia lembranças do pai que, coitado, não podia deixar a fazenda e aventurar-se a uma viagem dispendiosa e difícil, tanto mais que jurara nunca mais voltar à cidade de Belém, cheia de marinheiros insolentes e de pelintras malcriados. A comadre D. Brasília confiava de Deus e da Virgem o apressarem o dia em que pudesse abraçar o seu querido padre, e ouvir-lhe a missa num recolhimento íntimo e gozoso. Não escrevia porque, na fazenda das Laranjeiras, só quem dispunha de papel e tinta era o patrão, conforme o Antonico já sabia. Dado o seu recado, o padrinho retirava-se, recomendando muito ao afilhado que obedecesse bem ao senhores padres, que não os contrariasse em coisa alguma, porque só com uma conduta dócil e submissa lhes granjearia a estima e proteção indispensáveis à carreira que ia encetar.

Quando o padrinho saía para não voltar senão depois de seis ou doze meses, Antônio sentia de novo a impressão do isolamento em que caía, e absorvia-se outra vez em pensamentos tumultuosos e divoradores. Meditando as palavras do velho, reconhecia que eram justas e ajuizadas, filhas do bom senso prático, mas o seu temperamento ardente nem sempre lhe permitia adaptar a tais conselhos a sua conduta no Seminário, e apesar do propósito feito de prudência, a levedura de contradição que fermentava no seu espírito, continuava a agitá-lo numa luta interior dolorosa e estéril.

Roía dentro de si as aberrações da inteligência e do coração no que tocava na teologia dogmática e na filosofia moral, porque compreendia bem que manifestar tais aberrações seria trancar ao seu futuro as portas do estado eclesiástico a que se destinava. Mas o espírito de protestantismo e de rebeldia desafogava-se nas discussões da teologia moral em que, dizia padre Azevedo, citando um escritor católico, a Igreja permite alguma liberdade de opinião aos seus adeptos, por efeito da Divina Providência, porque uma vez que o apetite humano tem cobrado tanta resistência ao honesto e justo, melhor será ampliar a esfera deste com probabilidades, do que reduzi-lo a termos de arremessar-se ao pecado conhecido por tal.

(continua...)

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