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#Romances#Literatura Brasileira

Uma Lágrima de Mulher

Por Aluísio Azevedo (1880)

Porém, pouco a pouco, foram desaparecendo os últimos recursos e reproduzindo-se as dificuldades: o suor jorrava em bagas da fronte do moço; as pernas tremiam-lhe; a vista perturbava-se; a língua seca, o coração doído, a cabeça perdida; a respiração cada vez mais demorada e mais forte. O corpo de Rosalina parecia de chumbo; o cansaço fizera dele um corpo de gigante. Ora desanimava, ora reagia; as forças iam e vinham. Era um vaivém de agonias.

E nessa vertigem acompanhava ele com a vista esgazeada a luz vermelha da lanterna, que gradualmente ia-se afastando, diminuindo sempre.

Sem saber porque, ligava certa correspondência entre as próprias força que, extinta aquela luz, fartar-lhe-ia o ânimo para o resto do caminho; pedia mentalmente a Deus a vida para ela, com o mesmo fervoroso interesse como a pediria para si.

Contudo, a lanterna estava já nos seus últimos arrancos.

O velho tinha com vantagens de forças aumentado o espaço entre si e Miguel; mais dez passos, oito! cinco passos! Dois... e chegou!

A lanterna escondeu-se, a luz desapareceu para Miguel. O rapaz vacilou, ao cair! Equilibrou-se!...

Um vozear confuso e penetrante parecia-lhe dizer aos ouvidos — Ânimo!

Um esforço mais! Um último arranco!

O moço reuniu os destroços de suas forças; beijou com os lábios cobertos de suor o rosto gelado de Rosalina, e cortou de carreira os últimos trinta passos que faltavam.

A lanterna crepitava o seu último clarão, podemos dizer, o seu último suspiro, brilhou mais forte e morreu!...

Nisto, Miguel acabava de atravessar a porta do fundo da casinha branca e caía desamparadamente no chão, com Rosalina a seu lado.

Desabou, quase morto.

O suor corria-lhe de todo o corpo; a caixa dos pulmões erguia-se e abaixavase com a sofreguidão de um fole enorme fazendo grande rumor a respiração ao sair; a voz desaparecera; as pálpebras fecharam-se; o suor convertera-se em umidade pegajosa e doentia, como a última transpiração de um tísico.

Sentia vertigens e vontade de vomitar. Era um incomodo comparável ao enjôo do mar.

CAPÍTULO XVI

O pescador foi ao interior da casa e pouco depois voltou.

Com a presença do velho, Miguel ergueu-se de um pulo — era outra vez um homem.

Num dos ângulos sombrios de um quarto, Ângela, ao clarão minguado da luz de azeite orava, à Madona; a claridade mortiça do nicho escorria até a varanda e batia em cheio na palidez nublada do rosto de Rosalina. Estava sinistramente encantadora.

Maffei aproximou-se dela, arrastou-a até o leito e voltou.

Um gemido da desfalecida atraiu para si ao mesmo instante Ângela; para os corações extremosos, um gemido é sempre um apelo urgentíssimo.

Voltava o velho com as mãos vazias e o olhar tranqüilamente feroz; Miguel não era covarde, esperou-o sereno, de braços cruzados.

— Precisamos nos entender, disse Maffei com aspereza. Venha! E tomou o lado dos abrolhos, à esquerda da casa.

Miguel seguiu-o silenciosamente.

Entranharam-se na picada e desapareceram.

O caminho não era freqüentado, com o que se tornava mais difícil e em parte quase intransitável.

Miguel apenas o conhecia; o velho, porém, apesar dos obstáculos e do negrume da noite, que se tornara sombria, caminhava desembaraçadamente e até com pressa; o outro seguia-o, perdendo-o às vezes de vista, cortando com dificuldade a vegetação enfezada, que lhe obstava a passagem; os galhos chicoteavam-lhe as pernas e o rosto; diversas partes do corpo sangravam com os espinhos, duas gotas de sangue, que lhe corriam pela face, lembravam duas lágrimas vermelhas.

Depois de vencerem duzentos dificultosos passos, deram subitamente com a rocha; achavam-se defronte do mar.

As lufadas fortes do vento anunciavam próxima tempestade.

O tempo parecia colérico e os dois homens calmos e sombrios.

O velho sentou-se tranqüilamente na única pedra solta que havia e com um gesto convidou o companheiro a fazer o mesmo.

Miguel aceitou o convite e ficaram juntos.

A pedra era pequena, o que os obrigava a ficarem encostados, unidos, sós, como dois bons amigos de infância.

Depois de algum silêncio, Maffei abriu a falar, porém era como se o fizesse por mera formalidade; falava como se estivesse lendo, era como se proferisse as frases convencionais de um juramento perante um tribunal. Aquelas palavras metódicas e sem expressão verdadeira lembravam a missa. O velho falava como um padre.

— Teodoro Rizio, principiou ele, viveu para vergonha sua e da família. Era devasso e encontrado constantemente bêbado pelos alpendres; foi acusado de assassino e morreu preso numa prisão de Leorne. Sua desgraçada mulher não o sobreviveu por muito tempo, morrendo pouco depois, de tísica, dizem uns, de miséria, dizem outros; de vergonha, digo eu.

— De desgosto... emendou Miguel, deveras chocado com as palavras grosseiras do pescador, que lhe caíam na cabeça, pesadas e inteiriças, como paralelepípedos de pedra.

(continua...)

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