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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- O que quiseres... Eu aqui estou!

A outra sentou-se devagar à mesa, escolheu uma folha de papel e, com o dedinho no ar, a cabeça de lado, começou a escrivinhar.

Luísa passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resolução teimosa, que a presença de Leopoldina fortificava! Divertia-se aquela, dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ela uma tortura a minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! Não voltaria para casa sem levar na algibeira em boas libras o resgate, a salvação! Ainda que tivesse de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, dos sustos, das noites cortadas de pesadelos!... Queria saborear a vida, que diabo! O seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o coração contente!

- Vê lá - disse Leopoldina, lendo:

Meu Caro Amigo.

Desejo absolutamente falar-lhe. É um negócio grave. Venha logo que possa. Talvez me agradeça. Espero até às três horas, o mais tardar.

Com toda a estima,

Sua amiga Leopoldina.

- Que te parece?

- Horrível! Mas está bem... Está muito bem! Risca-lhe o "talvez me agradeça". É melhor.

Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, num trem.

- E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas.

A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam cobertas de uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes semelhavam colinas, e linhas azul-ferretes representavam lagos. Um armário, no ângulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia nódoas do café da véspera.

- De uma coisa podes tu ter a certeza - dizia Leopoldina, bebendo grandes goles de chá -, é queo Castro é um homem para um segredo!... Se te emprestar o dinheiro, que empresta, daquela boca não sai uma palavra. Lá nisso é perfeito... Olha que foi o amante da Videira anos! E nem ao Mendonça, que é o seu íntimo, disse uma palavra. Nem uma alusão! E um poço.

- Que Videira? - perguntou Luísa.

- Uma alta, de nariz grande, que tem um landô.

- Mas passa por uma mulher tão séria...

- Já tu vês! - E com um risinho: - Ai elas passam, passam. Lá passar. passam. A questão éconhecer-lhes os podres, minha fidalga!

E barrando de manteiga grandes fatias de pão, pôs-se a falar complacentemente dos escândalos de Lisboa, a desdobrar o sudário: citava nomes, especialidades, as que depois de terem feito o diabo gastam, numa devoção tardia, o resto de uma velha sensibilidade; que é por onde elas acabam, algumas é pelas sacristias! As que, cansadas decerto de uma virtude monótona, preparam habilmente o seu "fracasso" numa estação em Sintra ou em Cascais. E as meninas solteiras! Muito pequerrucho, por essas amas dos arredores, tem o direito de lhes chamar "mamã"! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras que, em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito suplementar! - Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que ela perdera, e manobravam com habilidade onde ela, a tola, tivera só a sinceridade! E enquanto elas conservavam as suas relações, convites para soirées, a estima da corte - ela perdera tudo, era apenas a Quebrais!...

Aquela conversação enervava Luísa; numa tal generalidade do vício parecia-lhe que o seu caso, como um edifício num nevoeiro, perdia o seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visível quase o julgava já justificado.

Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquele sentimento de uma forte imoralidade geral, onde as resistências, os orgulhos se amolecem, se eslanguescem - como os músculos numa estufa fortemente saturada de exalações mornas.

- Este mundo é uma história - disse Leopoldina erguendo-se e espreguiçando-se.

- E teu marido onde está? - perguntou Luísa no corredor.

- Fora para o Porto. Estavam à vontade, podiam cometer crimes!

E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, com o cigarrinho La Ferme na boca, começou também a queixar-se.

Andava aborrecida há tempos; enfastiava-se, achava tudo secante; queria alguma coisa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos os poros do seu corpo...

- E o Fernando, então? - disse distraidamente Luísa, que a cada momento se aproximava dajanela.

- Um idiota! - respondeu Leopoldina com um movimento de ombros, cheio de saciedade e dedesprezo.

(continua...)

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