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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Quando ouviu a história narrada pelo sacristão Macário, padre Antônio de Morais sentiu um vivo rubor subir-lhe ao rosto e afoguear-lhe o cérebro, perturbandolhe a vista. Um grande embaraço o enleava, e não sabendo o que devia dizer, ouvia silencioso o capitão Mendes da Fonseca falar, numa voz que a custo, por fim, conseguira guardar a serenidade do principio, como se um vivo despeito o agitasse. Esse embaraço foi, porém, passageiro. Compreendeu de relance a gravidade da situação em que se achava, o perigo que corria em desmentir o astuto sacrista cuja inventiva o maravilhava, dando-lhe uma forte vontade de rir da história da cutia misteriosa. Era forçoso fazer o sacrifício da verdade ao plano que engendrara, cujo resultado dependia da completa ocultação da falta cometida e que devia ser sepultada em eterno silêncio. Quando o capitão acabou de falar, o padre, disfarçando com dificuldade a pungente emoção, sentindo a mentira queimar-lhe os lábios, na sensação física do remorso, explicou que o Macário se enganara, mas não mentira. E como se tivesse pressa de se ver livre daquele penoso sacrifício, selando com a mentira o mistério dos três meses passados à sombra das laranjeiras em flor no sítio do Sapucaia, acrescentou em palavras breves, que naturalmente o Macário o tivera por morto, mas que a verdade era outra. Levado pelos índios, desmaiado e malferido, fora entregue aos cuidados de um pajé que o curara com o suco de algumas plantas. Os selvagens o haviam poupado por lhe conhecerem o caráter sacerdotal pela batina e pelo chapéu de três bicos, e o tinham posto em liberdade, depois de algumas conversões que fizera. Que tendo passado três meses nas selvas, pregando o Evangelho, resolvera regressar à sede de sua paróquia, e que achando-se à margem do Abacaxis encontrara uma família de tapuios, avô, neto e neta, que lhe oferecera passagem até o Amazonas.

— Por sinal, confirmou o Felisberto que tendo acabado de conversar com a tia Gertrudes, intervinha na conversação, encantado por auxiliar a S. Rev.ma na peta que pregava ao demônio do regatão: por sinal que nós não conhecíamos a S. Rev.ma e pensávamos que era a alma do padre santo João da Mata.

— A confusão, disse o Fonseca, não era lisonjeira para S. Rev.ma. Padre João era um pândego da força do nosso defunto padre José, que Deus haja, e não podia comparar-se a um confessor da fé.

Inclinou a cabeça em sinal de respeito, tomou a mão de padre Antônio, beijou-a e prosseguiu:

– Faz o Reverendíssimo muito bem em voltar para a sua paróquia. Não são somente os gentios que precisam da luz do Evangelho. Se o Reverendíssimo não nos tivesse deixado, quero crer que não me viria encontrar por estas paragens, rebaixado a fazer concorrência ao tratante do Costa e Silva, vindo pessoalmente regatear com esta súcia de caboclos ignorantes e vadios.

Fez uma pausa, e como S. Rev.ma se mostrasse admirado do que ele dizia, continuou:

— Fui exonerado de coletor...

— O senhor exonerado!

— É verdade, tornou o capitão. Fui exonerado, e logo vi que esta notícia causaria espanto a todo o homem inteligente. O miserável do José Pereira, que eu tinha deixado tomando conta da coletoria quando fui aos castanhais para o S. João, armou-me uma tal intriga, o safado - perdoe-me o Reverendíssimo a expressão que por mais empenhos que metesse, por mais explicações que desse, o cônego Marcelino, meu inimigo figadal, aproveitou a ocasião e fez-me aquela desfeita, e ainda por cima teve o descoco de dizer que a coisa ficava só na demissão porque eu tinha bons padrinhos!

Dos lábios contraídos pelo despeito escapou-lhe um insulto, reprimido em meio.

— Filho da...

E emendou:

— Filho da mãe!

Depois fazendo um esforço para conter-se continuou por largo tempo vazando a bílis acumulada desde que regressara dos castanhais, sem atender a que estavam de pé, ele, o padre, o Felisberto e a tia Gertrudes, e que teriam naturalmente alguma coisa .que fazer. Relatou miudamente as intrigas de José Pereira, o tal moço de bons costumes que, o Fonseca sabia agora positivamente, vivia amigado com a cunhada; os passos que dera para se justificar, a insistência do cônego Marcelino em o demitir, a situação falsa em que esse fato o colocara em Silves, a perda da confiança do Elias, a necessidade de apurar capitais para satisfazer os credores exigentes e a dura contingência em que se via de descer da sua dignidade para vir correr os rios do sertão, fazendo o comércio de regatão, muito rendoso de certo, mas indigno de um homem que era o verdadeiro chefe conservador de Silves, que se correspondera com o João Alfredo e com o cônego Siqueira...

(continua...)

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