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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Já fica dito como os principais dos tupinambás quando comem, estão deitados na rede, e como comem com eles os parentes, e os agasalha consigo; entre os quais comem também os seus criados e escravos, sem lhe terem nenhum respeito; antes quando o peixe ou carne não é que sobeje, o principal o reparte por quinhões iguais, e muitas vezes fica êle sem nada, os quais estão todos em cócoras, com a vasilha em que comem todos no chão no meio deles, e equanto comem não bebem vinho, nem água, o que fazem depois de comer. Quando os tupinambás comem à noite, é no chão como está dito, e virados com as costas para o fogo, e ficam todos às escuras; e não praticam em coisa alguma quando comem, senão depois de comer; e quando têm quê, toda a noite não fazem outra coisa, até que os vence o sono; e por outra parte mantém-se este gentio com nada, e anda logo dois e três dias sem comer, pelo que os que são escravos dão pouco trabalho a seus senhores pelo mantimento, antes eles mantêm os senhores fazendo-lhes suas roças, e caçando, e pescando-lhes ordinariamente.Este gentio não come carne de porco, dos que se criam em casa, senão os escravos criados entre os brancos; mas comem a carne dos porcos-do-mato e da água; os quais também não comem azeite, senão os ladinos; toda a caça que este gentio come, não a esfola, e chamuscam-na toda ou pelam-na na água quente, a qual comem assada ou cozida e as tripas mal lavadas; ao peixe não escamam nem lhe tiram as tripas, e assim como vem do mar ou dos rios, assim o cozem ou assam: o sal de que usam, com que temperam o seu comer, e em que molham o peixe e carne fazem-no da água salgada que cozem tanto em uma vasilha sobre o fogo, até que se coalha e endurece, com o que se remedeiam; mas é sobre o preto, e requeima. Este gentio é muito amigo do vinho, assim machos como fêmeas, o qual fazem de todos os seus legumes, até da farinha que comem; mas o seu vinho principal é de uma raiz a que chamam aipim, que se coze, e depois pisam-na e tornam-na a cozer, e como é bem cozida, buscam as mais formosas moças da aldeia para espremer estes aipins com as mãos e algum mastigado com a boca, e depois espremido na vasilha, que é o que dizem que lhe põem a virtude, segundo a sua gentilidade; a esta água e sumo destas raízes lançam em grandes potes, que para isso têm, onde este vinho se coze, e está até que se faz azedo; e como o está bem, o bebem com grandes cantares, e cantam e bailam toda uma noite às vésperas do vinho, e ao outro dia pela manhã começam a beber, bailar e cantar; e as moças solteiras da casa andam dando o Vinho em uns meios cabaços, a que chamam cuias, aos que andam cantando, os quais não comem nada enquanto bebem, o que fazem de maneira que vêm a cair de bêbados por êsse chão; e o que faz mais desatinos nessas bebedices, esse é o mais estimado dos outros, nos quais se fazem sempre brigas; porque aqui se lembram de seus ciúmes, e castigam por isso as mulheres, ao que acodem os amigos, e jogam às tiçoadas uns com os outros. São costumados a almoçar primeiro que se vão às suas roças a trabalhar, onde não comem enquanto andam no trabalho, senão depois que se vêm para casa.


C A P Í T U L O CLIX
Em que se declara o modo da granjearia dos tupinambás e suas habilidades.


Quando os tupinambás vão às suas roças, não trabalham senão das sete horas da manhã até ao meio-dia, e os muito diligentes até horas de véspera; e não comem neste tempo senão depois destas horas, que se vêm para suas casas; os machos costumam a roçar os matos, e os queimam e alimpam a terra deles; e as fêmeas plantam o mantimento e o alimpam; os machos vão buscar a lenha com que se aquentam e se servem, porque não dormem sem fogo, ao longo das redes, que é a sua cama; as fêmeas vão buscar a água à fonte e fazem de comer; e os machos costumam ir lavar as redes aos rios, quando estão sujas.Não fazem os tupinambás entre si outras obras-primas que balaios de folhas de palma, e outras vasilhas da mesma fôlha a seu modo, e do seu uso; fazem arcos e flechas, e alguns empalhados e lavrados de branco e preto, feitio de muito artifício; fazem cestos de varas, a que chamam samburá, e outras vasilhas em lavores, como as de rota da Índia; fazem carapuças e capas de penas de pássaros, e outras obras de pena de seu uso, e sabem dar tinta de vermelho e amarelo às penas brancas; e também contrafazem as penas dos papagaios com sangue de rãs, arrancando-lhes as verdes, e fazem-lhes nascer outras, amarelas; fazem mais estes índios, os que são principais, redes lavradas de lavores de esteiras, e de outros laços, e umas cordas tecidas, a que chamam muçuranas, de algodão, que têm o feitio dos cabos de cabresto que vêm de Fez.Quando este gentio quer tomar muito peixe nos rios de água doce e nos esteiros de água salgada, os atravessam com uma tapa-gem de varas, e batem o peixe de cima para baixo; onde lhe lançam muita soma de umas certas ervas pisadas, a que chamam timbó, com o que se embebeda o peixe de maneira que se vem acima da água como morto; onde tomam às mãos muita soma dele.As mulheres dêste gentio não cozem, nem lavam; sòmente fiam algodão, de que não fazem teias, como puderam, porque não sabem tecer; fazem deste fiado as redes em que dormem, mas não são lavradas, e umas fitas com passamanes e algumas mais largas, com que enastram os cabelos. As mulheres já de idade têm cuidado de fazerem a farinha de que se mantêm, e de trazerem a mandioca das roças às costas para a casa; e as que são muito velhas têm cuidado de fazerem vasilhas de barro a mão como são os potes em que fazem os vinhos, e fazem alguns tamanhos que levam tanto como uma pipa, em os quais e em outros, menores, fervem os vinhos que bebem; fazem mais estas velhas, panelas, púcaros e alguidares a seu uso, em que cozem a farinha, e outros em que a deitam e em que comem, lavrados de tintas de cores; a qual louça cozem numa cova que fazem no chão; e põem-lhe a lenha por cima; e têm e crêem estas índias que se cozer esta louça outra pessoa, que não seja a que a fez, que há de arrebentar no fogo; as quais velhas ajudam também a fazer a farinha que se faz no seu lanço. As fêmeas destes gentios são muito afeiçoadas a criar cachorros para os maridos levarem à caça, e quando elas vão fora levam-nos às costas; as quais também folgam de criar galinhas e outros pássaros em suas casas. As quais, quando com seu costume, alimpam-se com um bordão que têm sempre junto de si, que levam na mão quando vão fora de casa; e não se pejam de se alimparem diante de gente, nem de as verem comer piolho, o que fazem quando se catam nas cabeças umas às outras; e como os encontra a que os busca, os dá à que os trazia na cabeça, que logo os trinca entre os dentes, o que não fazem para comê-los, mas em vingança de as morderem.


C A P Í T U L O CLX
Que trata de algumas habilidades e costumes dos tupinambás.

(continua...)

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