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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Julião quase lhe tapou a boca com a mão. E falando-lhe ao ouvido, olhando o Conselheiro, recitou:

- Não ouses, temerário, erguer teus olhos Para a mulher de César!

E enquanto se bebia o curaçau, Julião pé ante pé dirigiu-se ao escritório, e foi erguer a ponta do xale-manta pardo que tanto o preocupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas as obras do Conselheiro intactas!

Quando Jorge entrou, às onze horas, Luísa já deitada lia, esperando-o.

Quis saber do jantar do Conselheiro.

Excelente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos. Tinha havido speechs... E de repente:

- É verdade, onde ias tu a Arroios?

Luísa passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. Disse, bocejando ligeiramente:

- A Arroios?

- Sim. O Saavedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que te via passar todosos dias para lá, de trem e a pé.

- Ah! - fez Luísa depois de tossir - ia ver a Guedes, uma rapariga que andou comigo no colégio,que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes!

- Sílva Guedes!... - disse Jorge refletindo. - Imaginei que estava secretário-geral em CaboVerde!

- Não sei. Estiveram aí um mês no verão. Moravam a Arroios. Ela estava doente coitada: eu ia láàs vezes. Mandava-me pedir para ir lá. Põe essa luz fora, está-me a fazer impressão.

Queixou-se então que toda a tarde estivera esquisita. Sentia-se fraca, e com uma pontinha de febre...

E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente de peso na cabeça, mal-estar... Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge não saiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. Mas Luísa insistiu que não era nada, um bocadito de fraqueza talvez... Foi também a opinião de Juliana, em cima na cozinha.

- Que aquela senhora é fraca; ali há coisa do peito - disse com importância.

Joana que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo:

- O que ela é, é uma santa!...

Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho:

- A Sra. Joana diz isso como se as outras fossem uma peste.

- Que outras?

- Eu, vossemecê, a mais gente...

Joana sempre remexendo nas panelas sem se voltar:

- Olhe, outra não encontra vossemecê, Sra. Juliana! Uma senhora que lhe fazer tudo o quequer, e faz ela mesma o serviço! Noutro dia andava a despejar as águas. E uma santa!

Aquele tom hostil de Joana exasperou-a; mas conteve-se; apesar da sua posição na casa, dependia dela para os caldinhos, os bifes, os petiscos; tinha diante dela a vaga timidez respeitosa das constituições franzinas pelos corpos possantes; pôs-se a dizer com uma voz tortuosa, ambígua:

- Ora! São gênios! Gosta de arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é senhora de muita ordem. Masgosta, gosta de trabalhar. Às vezes basta-lhe ver um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É gênio. Tenho visto outras assim... E punha a cabeça de lado franzindo os beiços.

- O que ela é, é uma santa - repetiu Joana.

- É gênio! Está sempre numa labutação. Eu nunca saio sem deixar tudo

brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até noutro dia, lá embaixo a

passar a roupa... Eu ia a sair, pois tirei logo o chapéu, e não consenti... Olhe, quer diga? Falta de cuidados, não ter filhos... Que ela não lhe falta nada...

Calou-se, remirou o pé, e com satisfação:

- Nem a mim - disse reclinando-se na cadeira. Joana pôs-se a cantarolar. Não queria questões.Mas ultimamente achava tudo aquilo muito fora dos eixos, a Juliana sempre na rua, ou metida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo ao deus-dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emagrecer! Não, ali havia coisa! Mas o seu Pedro que ela consultara, disselhe com finura, retorcendo o buço: - Elas lá se entendem! Trata tu de gozar, e não te importes com a vida dos outros. A casa é boa, toca a tirar partido!

Mas Joana sentia "lá por dentro" a crescer-lhe uma embirração pela Sra Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava a fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora; mas quê, tinha-lhe birra! O que a consolava era a idéia de que um piparote desfazia aquela magricela! E ia tirando partido da casa também. O Pedro tinha razão...

(continua...)

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