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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Sim, para um bocado de cancã... Para o cancã não há como as francesas... Mas muito chupistas!

O Conselheiro afirmou ajeitando as lunetas:

- Viajantes instruídos têm-me afiançado que as inglesas são notáveis mães de família...

- Mas frias como esta madeira - disse o Saavedra batendo na mesa. - Mulheres de gelo! - Ereclamava espanholas! Queria fogo! Queria salero! Tinha o olhar brilhante do vinho; a comida acendia-lhe o sentimento.

- Uma bela gaditana, hem, amigo Alves?

Mas em presença dos doces que a Sra. Filomena dispôs sobre a mesa, o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, discutia gulodices. Indicava as especialidades: para os folhados, o Cocó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o Largo de São Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os olhos:

- Porque - dizia - o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por dentro a alma!

Era todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com solicitude, entre as confeitarias e os lupanares.

Saavedra e Julião discutiam a imprensa. O redator do Século gabava a profissão de jornalista quando a gente, já se sabe, tem alguma coisa de seu; mais tarde ou mais cedo apanhava-se um nicho, não é verdade? Depois as entradas nos teatros, a influência nas cantoras. Sempre se é um bocado temido... E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da convivência, dizia a Jorge:

- Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre amigos, de reconhecidailustração, discutir as questões mais importantes, e ver travada uma conversação erudita?... Parecem excelentes os ovos.

A Sra. Filomena, então, com solenidade, veio colocar-lhe ao pé uma garrafa de champanhe

O Saavedra pediu logo para abrir, porque o fazia com muito chique. E nas a rolha saltou, e, no silêncio que criou a cerimônia, se encheram os copos, O Saavedra, que ficara de pé, disse:

- Conselheiro!

Acácio curvou-se, pálido.

- Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, à saúde de um homem, que- e arremessando o braço, deu um puxão ao punho da camisa com eloqüência -, pela sua respeitabilidade, a sua posição, os seus vastos conhecimentos, é um dos vultos deste país. À sua saúde, Conselheiro!

- Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro!

Beberam com ruído. Acácio depois de limpar os beiços, passou a mão trêmula pela calva, levantou-se comovido, e começou:

- Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circunstância. Se a soubesse de antemão,teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lágrimas me vão embargar a voz...

Falou então de si, com modéstia: reconhecia, quando via na capital tão ilustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consumados estilistas; reconhecia que era um zero! - E com a mão erguida formava no ar, pela junção do polegar e do indicador, um 0: um zero! Proclamou o seu amor à pátria: que amanhã as instituições ou a família real precisassem dele - e o seu corpo, a sua

pena, o seu modesto pecúlio, tudo oferecia de bom grado! Queria derramar todo o seu sangue pelo trono! - E, prolixo, citou o Euriko, as instituições da Bélgica, Bocage e passagens dos seus prólogos. Honrou-se de pertencer à Sociedade Primeiro de Dezembro... - Nesse dia memorável - exclamou -, eu mesmo as minhas janelas, sem o luxo dos grandes estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera!

E terminou dizendo: - Não esqueçamos, meus amigos, como portugueses, de fazer votos pelo ilustrado monarca, que deu às neves da minha fronte, antes de descerem ao túmulo, a consolação de se poderem revestir com o honroso hábito de São Tiago! Meus amigos, à família real! - e ergueu o copo - à família modelo, que sentada ao leme do Estado, dirige, cercada dos grandes vultos da nossa política, dirige... - Procurou o fecho; havia um silêncio ansioso - dirige... - Através das lunetas negras, os seus olhos cravavam-se, à busca da inspiração, na travessa da aletria - dirige... - Coçou a calva, aflito; mas um sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrara a frase; e estendendo o braço - ... dirige a barca da governação pública com inveja das nações vizinhas! A família real!

- À família real! - disseram com respeito.

O café foi servido na sala. As velas de estearina punham uma luz triste naquela habitação fria; o Conselheiro foi dar corda à caixa de música; e, ao som do coro nupcial da Lucia, ofereceu em redor charutos.

- E a Sra. Adelaide pode trazer os licores - disse à Filomena.

Viram então aparecer uma bela mulher de trinta anos, muito branca, de olhos negros e formas ricas, com um vestido de merino azul, trazendo numa bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa de conhaque e o frasco de curaçau.

- Boa moça! - rosnou com o rosto aceso o Alves Coutinho.

(continua...)

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