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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- A verdade é esta: o pais está sinceramente abraçado à família real... Não acha, meu bomSebastião? - Dirigia-se a ele como proprietário e possuidor de inscrições.

Sebastião, interpelado, corou, declarou que não entendia nada de política; havia todavia fatos que o afligiam; parecia-lhe que os operários eram malpagos; a miséria crescia; os cigarreiros, por exemplo, tinham apenas de nove a onze vinténs por dia, e, com família, era triste...

- É uma infâmia! - disse Julião encolhendo os ombros.

- E há poucas escolas... - observou timidamente Sebastião.

- É uma torpeza! - insistiu Julião.

O Saavedra calava-se, ocupado com o alimento; tinha desabotoado a fivela do colete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma cor de enfartação, e sorria vagamente, inchado.

- E os idiotas de São Bento?... - exclamou Julião.

Mas o Conselheiro interrompeu-o:

- Meus bons amigos, falemos de outra coisa. É mais digno de portugueses e de súditos fiéis.

E voltando-se logo para Jorge, quis saber como ficara a interessante D. Luísa.

Estava um pouco adoentada havia dias - disse Jorge. - Mas não era nada, mudança de estação, um bocadito de anemia...

O Saavedra, pousando o copo, e cumprimentando:

- Tive o prazer de a ver passar este verão quase todas as manhãs por minha casa - disse. - Iapara os lados de Arroios. Às vezes de trem, às vezes a pé...

Jorge pareceu um pouco surpreendido; mas o Conselheiro ia dizendo quanto lhe pesava não ter o prazer de a ver partilhar daquele modesto repasto; como celibatário porém... não tendo uma esposa para fazer as honras...

- E é o que eu admiro, Conselheiro - observou Julião -, é que tendo uma casa tão confortável,não se tenha casado, não se tenha dado o conchego de uma senhora...

Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado.

- São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades de um chefe de família- considerou ele.

Mas enfim - disseram, é o estado mais natural. E depois, que diabo, às vezes havia de se sentir só! E numa doença! Sem contar a alegria que dão os filhos!...

O Conselheiro objetou: "os anos, as neves da fronte..."

Também ninguém lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze anos! Não, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que tivesse atrativos, cuidados de interior... Era mesmo moral.

- Porque enfim, Conselheiro, a natureza é a natureza... - disse Julião com malícia.

- Há muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixões.

Ora qual! Era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! Era impossível que o Conselheiro, apesar dos seus cinqüenta e cinco, fosse indiferente a uns belos olhos pretos, a umas formazinhas redondas!...

O Conselheiro corava. E o Saavedra declarou, com um circunlóquio pudico - que nenhuma idade se eximia à influência de Vênus. Toda a questão é nos gostos - disse -, aos quinze anos gosta-se de uma matrona cheia, aos cinqüenta de um frutozinho tenro... Pois não é verdade, amigo Alves?

O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a língua.

E o Saavedra continuou:

- Eu, a minha primeira paixão foi uma vizinha; mulher de um capitão de navios, mãe de seisfilhos, e que não cabia por aquela porta. Pois senhores, fiz-lhe versos, e a excelente criatura ensinou-me um par de coisas agradáveis... Deve-se começar cedo, não é verdade? - E voltouse para Sebastião.

Quiseram então saber as opiniões de Sebastião - que se fez escarlate.

Por fim, muito solicitado, disse com timidez:

- Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimá-la toda a vida...

Aquelas palavras simples produziram um curto silêncio. Mas o Saavedra, reclinando-se, classificou uma tal opinião de burguesa; o casamento era um fardo; não havia nada como a variedade...

E Julião expôs dogmaticamente:

- O casamento é uma fórmula administrativa, que há de um dia acabar...

- De resto, segundo ele, a fêmea era um ente subalterno; o homem deveria aproximar-se delaem certas épocas do ano (como fazem os animais, que compreendem estas coisas melhor que nós), fecundá-la, e afastar-se com tédio.

Aquela opinião escandalizou a todos, sobretudo o Conselheiro, que a achou "de um materialismo repugnante".

- Essas fêmeas para quem é tão severo, Sr. Zuzarte - exclamava ele - essas fêmeas são nossasmães, nossas carinhosas irmãs, a esposa do chefe de Estado, as damas ilustres da nobreza...

- São o melhor bocadinho deste vale de lágrimas - interrompeu com fatuidade o Saavedra,dando palmadinhas sobre o estômago. Dissertou então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; não havia nada como um pezinho catita! E a todas preferia a mulher espanhola!

O Alves votava pelas francesas; citava algumas do café-concerto, criaturas de fazer perder a cabeça!... - E injetavam-se-lhe os olhos.

O Saavedra disse com um trejeito hostil:

(continua...)

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