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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Voltar para Silves e dar ali o exemplo da castidade e da dedicação ao serviço divino pareceria arrependimento sincero? Não se sentiria com forças para arrostar com um povo que o sabia vulgar e desmoralizado, repugnava-lhe invencivelmente apresentar-se aos seus antigos paroquianos em atitude humilde de pecador arrependido. O episódio do sítio da Sapucaia não seria mistério para pessoa alguma, porque o Felisberto contara provavelmente, devia ter contado, não podia deixar de contar ao Costa e Silva a permanência do padre na casa e as conseqüências que se lhe seguiam. Todos em Silves, o Mapa-Múndi e o Neves Barriga, o Mendes da Fonseca e o Valadão, o Aníbal Americano e até o patife do Macário, se é que lá chegara, todos deviam estar a rir daquela famosa catequese, iniciada com tão grande ardor religioso e tão patuscamente terminada. O MapaMúndi negaria, invocando o testemunho do Costa e Silva, que tivesse chorado ouvindo o famoso sermão sobre a eternidade; o Neves Barriga lamentaria os obséquios feitos a um pândego da ordem de padre Antônio; o professor Aníbal Brasileiro diria que desconfiar a do padre quando o vira opor-se à publicação da Aurora, e o Mendes da Fonseca e o Valadão esgotariam o cômico incidente, comentando o caso com a profundeza dos seus conceitos e acabando por dar razão aos ataques do Chico Fidêncio contra o clero. As mulheres também não o poupariam. A D. Dinildes afirmaria que lhe dirigira gracinhas, uma vez, ao confessionário e a D. Prudência que deixara de o presentear porque soubera das suas relações com a bisca da Madeirense... O arrependimento era, pois, inútil, porque não lhe salvaria o nome, pensava ele, confundindo o interesse da salvação da alma com o da reputação mundana. De nada serviria ser bom e virtuoso, desde que os outros o consideravam mau. Assim era forçoso tirar esta conclusão lógica: se o tratante do Felisberto dera com a língua nos dentes a respeito da Clarinha, o que não podia deixar de ter acontecido, ele, padre Antônio de Morais, estava perdido para sempre, em pecado mortal, incapaz duma regeneração perfeita.

Esta conclusão que claramente lhe figurava a sua irremediável desgraça arrancou-o à reflexão calma, com que procurava estudar a situação presente. As idéias baralharam-se no cérebro. Um desânimo profundo apoderou-se dele.

Passou a noite mal, muito agitado pelos terrores do inferno, e mordido no amor-próprio pela idéia da má opinião que os outros estariam tendo dele em Silves. A Clarinha achou-o frio, preocupado, nervoso, movido por impaciências bruscas que pela primeira vez lhes separavam os corações. Ela pôs-se a chorar silenciosamente, doída daquele abandono que não tinha explicação para a sua simplicidade, crente na duração perpétua daquela paixão que soubera inspirar ao senhor padre, o qual, ainda na véspera, a manifestara por beijos ardentes de amor e de volúpia.

Ele deixou-a chorar. Um ressentimento lhe vinha contra aquela rapariga que o havia seduzido e arrastado ao precipício, em cujo fundo se revolvia num leito de espinhos e de lama; um ressentimento que não podia deixar de considerar injusto, mas que por isso mesmo mais o irritava, gelando-lhe o coração. Sentia uma repugnância súbita daqueles deleites que tanto o haviam subjugado, e ora lhe pareciam sem atração e sem calor. Como se uma névoa lhe tivesse caído dos olhos, percebia que o prazer físico daquele amor de mameluca não lhe bastava para encher o vácuo do coração, donde arrancara a confiança no futuro.

Chegou a manhã sem que tivesse conciliado o sono, excitado ainda mais contra a Clarinha que adormecera afinal, cedendo às exigências da natureza, como se lhe tivessem bastado aquelas poucas lágrimas que vertera para a justificar do crime cometido. Levantou-se de mau humor, e no copiar, encontrando o Felisberto, deu-lhe uma descompostura.

Fizera-a boa, o Felisberto, não havia dúvida! Agora ele, padre Antônio de Morais, estava com a sua carreira cortada! Havia de passar toda a vida no sertão do Guaranatuba a beber vinho de cacau, a chupar laranjas, a dormir com a sirigaita da Clarinha, e a aturar as maçadas do idiota do Felisberto, em vez de continuar a sua carreira honrosa, podendo vir a ser cônego e talvez que bispo um dia! Estava enganado o pateta se pensara que ele voltaria para Silves, depois que ali se soubera que não fora a porto dos Mundurucus, e ficara de namoro com a Clarinha no furo da Sapucaia. Nada. Ou seria vigário com a força moral que soubera adquirir ou não seria mais nada neste mundo! E que diria o Chico Fidêncio? Que escreveria aquele patife para o Democrata? Vamos! Dissesse o Felisberto o que escreveria o Chico Fidêncio! Bandalheiras, mentiras, mentiras, desaforos! E quem era culpado de tudo isto? Aquela besta que logo havia de encontrar em Maués um morador de Silves com quem desse à taramela!

Passeava agitado na varanda, com as mãos atrás das costas, carrancudo, irritado, reproduzindo na fisionomia os traços duros do caráter paterno. Desabafava a ira em palavras grosseiras, que pela primeira vez saíam daquela boca acostumada aos doces fraseados com que captava os ânimos do auditório. Sentia uma grande cólera contra aquele estafermo que ali estava, estúpido e mole, sem ânimo de protestar contra os insultos que ele lhe atirava, e gozava um alívio cada vez que um palavrão porco ou indecente lhe caía dos lábios. O Felisberto, atônito, punha os dedos em cruz, e beijando-os, jurava que não dissera nada ao Costa e Silva, mas S. Rev.ma não o ouvia e continuava a descompostura que só cessou quando o tapuio, corrido e atemorizado, fugiu, receando o castigasse mais severamente do que com palavras.

S. Rev.ma durante todo o dia evitou a Clarinha, que, sentada na maqueira, balançando-se de mansinho, com os olhos baixos, sem ânimo de dizer palavra, curtia a primeira mágoa que lhe amargurava a existência depois da morte de sua querida mãe.

À noite, por força do costume, reuniram-se no quarto do padre, que mudo e carrancudo, vagamente arrependido dos excessos a que se entregara, quedava-se estirado na marquesa, a parafusar sobre a solução do intrincado problema que a

(continua...)

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