Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Assim como se na terra criam mil imundícias de bichos prejudiciais ao remédio da vida humana, como atrás no capítulo das alimárias fica declarado, da mesma maneira se criam no mar, como se verá pelo que neste capítulo se contém.Pindá chamam os índios aos ouriços que se criam no mar da Bahia, que são como os da costa de Portugal, os quais se criam em pedras; e não usa ninguém deles para se comerem, nem para outra coisa alguma que aproveite para nada.Lança este mar fora, muitas vezes, com tormenta, umas estrelas da mesma feição e tamanho das que lança o mar da Espanha, as quais não servem para nada, a que os índios chamam jaci.Também este mar lança fora pelas praias alforrecas ou coroas-defrades, como aquelas que saem no rio de Lisboa na praia de Belém e em outras partes; e na Bahia saem às vezes juntas duas e três mil delas, a que os índios chamam muciqui.Muitas vezes se acha pelas praias da Bahia uma coisa preta, mui liada, como fígado de vaca, com o que se enganaram muitos homens cuidando ser âmbar, e é uma água-morta, segundo a opinião dos mareantes.Também deita o mar por estas praias muitas vezes esponjas, a que os índios chamam itamembeca, as quais se criam no fundo mar, de onde umas saem delgadas e moles, e outras tesas e aperfeiçoadas. Aos gusanos chamam os índios ubiraçoca, do qual não é de espantar furar a madeira dos navios, pois fura as pedras, onde não acha paus, as quais se acham cada hora lavrada deles, e furadas de uma banda e outra; êste gusano é um bicho mole e comprido como minhoca, e da mesma feição; e tem a cabeça e boca dura, o qual se cria numa casca roliça, retorcida, alva e dura, como búzio, e com ela faz as obras e dano tão sabidos; e para roer não lança fora desta casca mais que a boca, com que faz o caminho diante desta sua camisa, que o corpo do bicho de dentro manda para onde quer; e para este gusano não fazer tanto dano nas embarcações, permitiu a natureza que o que se cria na água salgada morra entrando na água doce, e o que se cria na água doce morra na água salgada. Na Bahia houve já muito, mas já agora não há tanto que faça mal aos navios e outras embarcações.Nas redes de pescar saem às vezes umas pedras brancas, que fizeram já os homens terem pensamentos que era coral branco, por se criarem no fundo do mar, soltas, feitas em casteletes alvíssimos, que são tão delicados, lindos, e de tanto artifício, que é coisa estranha, os quais são muito duros e resplandecentes; e dizem alguns contemplativos que se criam dos limos do mar, porque se acham alguns muitas vezes enfarinhados de areia congelada e dura, e eles mui brancos, mas não ainda aperfeiçoados, como coisa que se vai criando.
C A P Í T U L O CXLIV
Que trata da natureza e feições dos peixes de água doce.
Não menos são de notar os pescados que se criam nos rios de água doce da Bahia, que os que se criam no mar dela; do que é bem que digamos daqui por diante.E comecemos dos eirós que há nestes rios, que se criam debaixo das pedras, a que os índios chamam mocim, os quais são da feição e sabor das de Portugal.Tareiras são peixes tamanhos como mugens, e maiores; mas são pretos, da cor dos enxarrocos, e têm muitas espinhas, os quais se tomam a linha, nos rios de água doce; têm boas ovas e nenhuma escama; do que há grandes pescarias. Juquiás chamam os índios a outros peixes da feição dos safios da Espanha, mas mais pequenos; os quais se tomam às mãos, entre as pedras; o qual peixe não tem escama, e é mui saboroso.Tamuatás são outros peixes destes rios que se não escamam, por terem a casca mui grossa e dura, e que se lhe tira fora inteira depois de assados ou cozidos, os quais se tomam a linha; e é peixe miúdo, muito gostosos e sadio.Piranha quer dizer "tesoura"; é peixe de rios grandes, e onde o há, é muito; e é da feição dos sargos, e maior, de cor mui prateada; este peixe é muito gordo e gostoso, e torna-se a linha; mas tem tais dentes que corta o anzol cerce; pelo que os índios não se atrevem a meter na água onde há este peixe, porque remete a eles muito e morde-os cruelmente; se lhes alcançam os genitais, levam-lhos cerce, e o mesmo faz à caça que atravessa os rios onde este peixe anda.Querico é outro peixe de água doce da feição das savelhas, e tem as mesmas espinhas e muitas, e é muito estimado e saboroso, o qual peixe se toma â linha.Cria-se nestes rios outro peixe, a que os índios chamam uacari, que são do tamanho e feição das choupas de Portugal, mas têm o rabo agudo, a cabeça metida nos ombros e duas pontas como cornos; e têm a pele grossa, a qual os índios têm por contrapeçonha para mordeduras de cobras e outros bichos, o qual se toma a cana.Tornam-se nestes rios outros peixes, a que os índios chamam piabas, que são pequenos, da feição dos pachões do rio de Lisboa, o qual é peixe saboroso e de poucas espinhas.Também se tomam a cana nestes rios outros peixes a que os índios chamam maturaquê, que são pequenos, largos e muito saborosos.Há outros peixes nos rios, a que os índios chamam gua-rara, que são como ruivacas, e têm a barriga grande, os quais se tomam a cana.Acarás são outros peixes do rio, tamanhos como bezugos, mas têm o focinho mais comprido, que é peixe muito saboroso; o qual se toma a cana.Há outras muitas castas de peixe nos rios de água doce, que para se escrever houvera-se de tomar muito de propósito mui largas informações, mas por ora deve de bastar o que está dito para que possamos dizer de algum marisco que se cria na água doce.
C A P Í T U L O CXLV
Que trata do marisco que se cria na água doce.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.