Por Eça de Queirós (1878)
- Sr. Conselheiro - disse Julião com uma voz profunda - tenho-lhe inveja! E as suas lunetasescuras fixavam-se com uma preocupação crescente num xale-manta pardo, que a um canto cobria cuidadosamente, a julgar pelas saliências, altas pilhas de livros. Que seria? - Tenho-lhe inveja! - repetiu. - E outra coisa, Conselheiro, não se me dava de lavar as mãos.
Acácio levou-o logo ao seu quarto e retirou-se discretamente. Julião, sempre curioso, observou, surpreendido, duas grandes litografias aos lados da cama - um Ecce homo! e a Virgem das Sete Dores. O quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e teve a consolação de verificar que havia sobre o travesseiro duas fronhazinhas chegadas de um modo conjugal e terno!
Apenas ele saiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o Conselheiro conduziu-os à sala de jantar, dizendo jovialmente:
- Não esperem o festim de Lúculo: é apenas o modesto passadio de um humilde filósofo!
Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundância das travessas de doce; havia creme crestado a ferro de engomar, um prato de ovos queimados, aletria com as iniciais do Conselheiro desenhadas a canela.
- É um grande dia para Sebastião! - disse Jorge.
O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com um riso na face amarela:
- É cá dos meus, hem? Gosta do belo doce! Também me pelo, também me pelo!...
Houve então um silêncio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa muito quente, agitavam os longos canudos brancos e moles do macarrão.
O Conselheiro disse:
- Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão!
- Gosta do macarrão? - acudiu o Alves.
- Muito, meu Alves. Lembra-me a Itália! - E acrescentou: - País que sempre desejei ver. Dizemme que as suas ruínas são de primeira ordem. Pode ir trazendo o cozido, Sra. Filomena... - Mas detendo-a, com um gesto grave: - Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um pargo.
Houve uma hesitação, Jorge disse:
- O cozido talvez.
E o Conselheiro com afeto:
- O nosso Jorge opina pelo cozido.
- Também estou pela sua! - exclamou o Alves Coutinho, voltado para Jorge, com o olho afogadoem reconhecimento: - O cozidinho!
E o Conselheiro que julgava do seu dever dar à conversação nobreza e interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa:
- Dizem-me que é muito liberal a Constituição da Itália!
Liberal! Segundo Julião, se a Itália fosse liberal devia ter há muito expulso a coronhadas o Papa, o Sacro Colégio, e a Sociedade de Jesus!
O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolência do amigo Zuzarte para o "chefe da Igreja".
- Não - explicou - que eu seja um secretário do Syllabus! Não que eu queira ver os jesuítas entronizados no seio da família! Mas - e a sua voz tornou-se profunda - o respeitável prisioneiro do Vaticano é o vigário de Cristo! Meu Sebastião, sirva o arroz!
Não havia que estranhar aquelas opiniões católicas do Conselheiro, ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes à cabeceira da cama...
A calva de Acácio fez-se rubra. O Saavedra do Século exclamou com a boca cheia:
- Não o sabia carola, Conselheiro!
Acácio, aflito, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e acudiu:
- Eu peço ao meu Saavedra que não tire desse fato ilações erradas. Os meus princípios sãobem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio...
- Para os que o precisam... - interrompeu Julião.
Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdito respondeu, devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio:
- Não o precisamos nós decerto, que somos as classes ilustradas. Mas precisa-o a massa dopovo, Sr. Zuzarte. Senão veríamos aumentar a estatística dos crimes.
E o Saavedra do Século, erguendo as sobrancelhas, com a fisionomia muito séria:
- Pois olhe que diz uma grandíssima verdade. - Repetiu a máxima, modificando-a: - A religião é um bridão! - Fazia com o gesto o esforço de conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava.
O Conselheiro continuava, explicando:
- Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas litografias ou gravuras, alusivas ao mistérioda Paixão, têm o seu lugar num quarto de cama, e inspiram de certo modo sentimentos cristãos. Não é verdade, meu Jorge?
Mas o Saavedra interrompeu ruidosamente, com a face acesa numa jovialidade libertina:
- Eu, num quarto de dormir, as únicas pinturas que admito são uma bela ninfa nua, ou umabacante desenfreada!
- Isso, isso! - bradou o Alves Coutinho. A boca dilatava-lhe numa admiração sensual. - EsteSaavedra! Este Saavedra! E baixo para Sebastião: - Tem um talento! Tem um talento!
O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o estômago:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.